sábado, 16 de junho de 2012

Refletindo sobre a importância da leitura dos clássicos


                Ultimamente tenho andado um pouco afastado da atividade de palestrante, de escritor e de blogueiro devido aos meus estudos universitários. Pois, para mim, não é porque estou em uma faculdade particular que ficarei limitado pelas facilidades proporcionadas pelo fato de estudar em uma instituição privada.  Além de ser isto algo que não admito em um aluno, em qualquer nível em que ele esteja não é algo que consigo aceitar em mim mesmo. Não consigo ficar sem pesquisar outras fontes. Isto é algo que aprendi nos estudos espíritas e que muito me facilita o dia a dia de estudante universitário que não deseja ser só mais um na estatística deste nosso Brasil. E por isto, o tempo que já é escasso, fica ainda menor. Daí minha dificuldade em escrever.
            Bom, esta digressão é apenas uma forma de querer informar às pessoas que leem este blog o motivo de estar tão ausente. Pois minha última postagem, com um texto meu data de outubro do ano passado. E não foi por falta de vontade, mas, infelizmente, tudo tem o seu tempo e momento. E por falar em momento, é justamente por causa de um texto que recebi por e-mail que acabei escrevendo estas linhas. Ele me foi enviado esta semana e a assinatura diz ser do Orson Peter Carrara, escritor, palestrante e editor de livros espíritas. Ele me fez parar pra pensar. O texto tem o título sugestivo: Clássicos de Emmanuel.
            O objetivo do texto é fazer uma propaganda de cinco obras psicografadas pelo Chico Xavier e assinadas pelo Espírito Emmanuel. As obras são: Há dois mil anos, Cinquenta anos depois, Ave, Cristo!, Renúncia e Paulo e Estêvão. Bom, com exceção de Ave, Cristo!, todos os outros livros eu li e também recomendo a leitura para quem ainda não se permitiu a aventura de passear por suas páginas. Entretanto, estranhei, de fato, a atitude do amigo Orson de preocupar-se em apenas destacar a importância da leitura destes livros, e deixar de estimular as obras de diversos outros trabalhadores da seara, tanto de encarnados quanto de desencarnados. Pois se ele se assustou ao perceber que os neófitos em Espiritismo não haviam lido ainda estes romances, imagina se ele perguntasse se alguém, entre estes mesmos neófitos, já tinha lido ou ouvido falar de obras como O Céu e o Inferno, A Gênese e as Revistas Espíritas, para citar os livros da codificação? Imagina se ele fosse perguntar se alguém já leu ao menos UMA obra do importantíssimo escriba chamado Hermínio C. Miranda? E do não menos importante J. Herculano Pires? Não ouso citar nem o Gabriel Delanne. Uma importantíssima obra dele foi publicada pela primeira vez em português e, mesmo já tendo a adquirido, ainda não pude estudá-la, somente folhear suas páginas: Pesquisas sobre Mediunidade. Uma obra contendo material riquíssimo para as reflexões, principalmente, dos estudantes e profissionais das áreas de Psicologia e Psiquiatria, mas que não é divulgada.
            Outra importante obra nesta área e que também não é sequer mencionada em lugar algum, muito menos em eventos intitulados de científicos, em termos de Espiritismo são: Condomínio Espiritual e Os Estigmas e os Enigmas, de Hermínio Miranda. Aqui um detalhe importante: me refiro aqui aos eventos e artigos com os quais tive contato. Podem até ter trabalhado estes conceitos, entretanto falo dos que conheço ou li sobre. São obras de um conteúdo riquíssimo e que também deveriam ser constantemente lembradas. Até Leon Denis, o grande sucessor de Kardec em solo francês [claro que sem compará-lo à grandeza intelectual do Delanne, comparação assaz injusta devido à diferença de estilos e de objetivos nos estudos de ambos], não é constantemente lembrado nem em artigos nem em palestras. Diante disto, ficarei apenas lembrando e estimulando a leitura de romances por parte dos neófitos? Não. Da mesma forma que na escola, desde a alfabetização, eu preciso estimular na criança o interesse por compreender a interrelação entre as palavras, as frases, os períodos, os parágrafos e a coerência e coesão do texto como um todo, apreendendo o seu conteúdo e aprendendo a analisá-lo criticamente, como esqueço de fazer o mesmo em Espiritismo? Não digo que esta seja a atitude do colega escritor e palestrante, pois seria de uma leviandade sem tamanho, pelo simples fato de conhecê-lo muito pouco para querer supor algo em suas atitudes ou palavras.
            Mas, o que de fato desejo ressaltar, é que devemos estimular a leitura de TODA a literatura espírita, e não apenas de romances, mesmo que sejam os psicografados por Chico e de autoria de Emmanuel ou André Luiz. Tesouro muito mais valioso eu considero a Codificação, e nós nos esquecemos [intencionalmente?] de estudar e divulgar suas páginas para estudo. Imagina estes livros? Copiando descaradamente um trecho do texto do Orson, e dedicando às obras por mim já citadas [de Kardec, Hermínio, Delanne, Denis e Herculano], concordo quando ele diz que 

“São livros para serem lidos e relidos continuamente, tal a preciosidade de suas páginas. Interessante porque, à medida que amadurecemos na idade, na experiência de vida e mesmo no conhecimento espírita, mais esses livros crescem em importância ao nosso sentimento e ao nosso raciocínio. Portanto, se você não leu, não perca essa oportunidade de muito aprender”.
Realmente, são ESTAS as obras que devem TAMBÉM, e muito mais, serem lidas e relidas, estudas e esmiuçadas continuamente, por sua capacidade nos fazerem crescer não só intelectualmente, mas, também emocionalmente.
            E principalmente para nós, que somos oradores, escritores, comentadores de tudo o que receba o título de espírita é que fica o compromisso de não esquecer que uma formação doutrinária eficaz e coerente começa e continua sempre da Codificação pra frente, tendo os neófitos de aprenderem desde o momento em que adentram a casa espírita a compreender que é pela base que se começa o estudo da doutrina e não por obras que visam elaborar pensamentos tendo esta base por fundamento para reflexão. Não devemos olhar estes romances com os olhos já acostumados com outras perspectivas, mas, aprender e ser verdadeiramente estimulados a ler estes livros da mesma forma que Kardec se predispunha a ler os romances psicógrafos de sua época. E esta maneira de se olhar só pode ser aprendida e ensinada tendo-se a Codificação [com as Revistas Espíritas incluídas] como “a bússola” e não mero detalhe não tão atrativo.
            Que fique claro que não desejamos diminuir o valor que estes livros possam ter, entretanto, não posso querer atribuir a eles um valor que eu, enquanto indivíduo participante do movimento espírita, não posso racionalmente atribuir-lhes porque não possuo recursos nem intelectuais nem doutrinários suficientemente maduros para avaliar e poder examinar criticamente, sem me deixar levar pelas opiniões alheias, justas ou injustas, embasadas ou não. E é isto o que mais me fez refletir. E entenda-se este texto, não como uma crítica ao que o Orson escreveu, mas, e acima de tudo, estas palavras são no sentido de complementar a advertência feita por ele, mas, sem perder a característica de análise crítica.
            Enfim, que possamos estimular a leitura destes romances, mas, que possamos estimular, acima de tudo, uma eficiente e efetiva movimentação em prol de uma correta formação doutrinária do adepto do Espiritismo. Estimulando-o a amadurecer como indivíduo e a ter condições de estudar tanto os belos romances psicografadas, de um modo geral, mesmo sabendo que não são muitos, quanto os de conteúdo mais denso e que exigem um poder de concentração maior por parte do leitor. Até porque, o contrário seria formar uma classe que por si só já é abominável em qualquer lugar, imagine-se no Espiritismo: a de espíritas não praticantes. Aqueles que se contentam somente em ler os romances e a ir ao centro pra tomar passe, beber a água fluidificada e a ouvir a palestra [ou seria o sermão] do dia...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Café Filosófico: A Imortalidade da Alma à Partir do Fédon de Platão


Estivemos presentes na manhã de ontem (02/05 das 08:00 às 09:30) apresentando um café filosófico na Faculdade dos Guararapes sobre a Imortalidade da Alma à partir do Fédon de Platão, onde pudemos apresentar as raízes do pensamento platônico, como o Orfismo, religião de mistérios 'criada' por Orfeu, o filósofo Pitágoras, criador do termo filosofia e pai do famoso "Teorema de Pitágoras", Heráclito, para quem tudo era uma eterna mudança e Parmênides, que entendia a imutabilidade como a realidade do ser e a impermanência como uma ilusão dos sentidos. Pudemos conversar um pouco sobre Sócrates, um pouco sobre platão e abordamos a obra Fédon, escrita por Platão para fundamentar filosoficamente a sua crença na imortalidade da alma dando uma solução para a aporia (que significa "um caminho sem saída") criada entre Heráclito e Parmênides, surgindo disso a dialética platônica e a distinção entre o mundo sensível e o mundo inteligível, o mundo das formas e o mundo das essências. Hoje, será realizado o segundo momento do café, no horário das 19:00 às 20:30, com direito a certificado para aqueles que se inscreverem no site da faculdade (COEX). É uma ótima oportunidade para trazer para perto de nós um pouco da riqueza e diversidade do pensamento filosófico do mundo antigo. Riqueza esta que seria muito oportuna apresentar ao público espírita, que perceberia muitas conexões entre os pensamentos dos antigos e o que aprendemos com a Doutrina Espírita.

Quem sabe, em breve, possamos realizar um evento deste voltado para o movimento espírita...? 

Bom, queria apenas noticiar-lhes um evento que considero importantíssimo e que fico feliz por ter sido o idealizador e o palestrante responsável pela apresentação do tema.

Um forte abraço e até a próxima meus caros.

Anderson

domingo, 8 de abril de 2012

Palestra no Seara de Deus

Dia 21 de abril, estarei presente no Grupo Espírita Seara de Deus, que fica no Janga, em Paulista para uma palestra sobre a importância da análise crítica dos ditados mediúnicos. Este é um tema de extrema relevância nos dias de hoje, dada a crescente fragmentação do movimento espírita em torno, não mais da Doutrina dos Espíritos, mas, em torno de personalidades [médiuns ou oradores] e espíritos, sejam eles verdadeiros sábios ou simples embusteiros, verdadeiros pseudossábios, como diria a terminologia espírita. Aguardo os amigos por lá!

domingo, 18 de março de 2012

Para Reflexão:

Revista Espírita de janeiro de 1866:

"Cada um é livre de encarar as coisas à sua maneira, e nós, que reclamamos esta liberdade para nós, não podemos recusá-la aos outros. Mas, porque uma opinião é livre, não se segue que não se a possa discutir, examinar o lado forte e o fraco, pesar suas vantagens e inconvenientes.

Dizemos isto a propósito da negação da utilidade da prece, que algumas pessoas quereriam erigir em sistema, para transformá-lo em bandeira de uma escola dissidente...

...Se o Espiritismo proclama a sua utilidade, não é por espírito de sistema, mas porque a observação permitiu constatar a sua eficácia e o modo de ação. Desde que, pelas leis dos fluidos, compreendemos o poder do pensamento, também compreendemos o da prece, que é, também ela, um pensamento dirigido para um fim determinado.

Além da ação puramente moral, o Espiritismo nos mostra na prece um efeito de certo modo material, resultante da transmissão fluídica. Em certas moléstias sua eficácia é constatada pela experiência, como demonstrada pela teoria. Rejeitar a prece é, pois, privar-se de poderoso auxiliar para alívio dos males corporais.

Depois da prece, se se está fraco, sente-se mais forte; se se está triste, mais consolado. Tirar a prece é privar o homem de seu mais poderoso suporte moral na adversidade. Pela prece ele eleva sua alma, entra em comunhão com Deus, identifica-se com o mundo espiritual, desmaterializa-se, condição essencial de sua felicidade futura; sem a prece, seus pensamentos ficam na Terra, ligam-se mais e mais as coisas materiais. Daí um atraso no seu adiantamento.

Nas reuniões espíritas a prece predispõe ao recolhimento, à seriedade, condição indispensável, como se sabe, para as comunicações sérias. É dizer que devam ser transformadas em assembléias religiosas? De modo algum. O sentimento religioso não é sinônimo de profissionalismo religioso; deve-se mesmo evitar o que poderia dar às reuniões esse último caráter."

sábado, 11 de fevereiro de 2012


Caríssimos, dentro do importantíssimo tema que é o Magnetismo é bom saber que existe um evento que tem como meta desenvolve-lo, anasá-lo e reanalisá-lo além de colocá-lo dentro das perspectivas científicas atuais. Não sei à quantas andam as pesquisas do Jacob, por ter me afastado dos trabalhos 'magnéticos' em virtude da vida acadêmica, mas, pela que já tinha visto, está longe de perder sua força.

Este ano, o evento ocorre em Pompano Beach, Flórida - EUA. Para quem tiver disponibilidade e interesse, vale a pena inscrever-se e viajar até lá para participar do evento. Para os trabalhadores que usufruem de condições, é uma obrigação, ao menos, refletir sobre a possibilidade. Para nós outros, mortais sem condições financeiras, nem de tempo, nem profissionais para participar, cabe esperar que o evento seja transmitido pela internet ou que os vídeos estejam disponíveis no Youtube.

Até lá, que os bons espíritos apoiem este importantíssimo evento.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Máximas de Kardec

Após tanto tempo sem postar, retorno com um trecho escrito por Kardec na obra O Que é o Espiritismo. É um trecho interessante e que deixo como objeto de reflexão para cada um de nós que fazemos o movimento espírita. Principalmente neste tempo onde informações tendenciosas, ou sem fundamentação lógica, quiçá, doutrinária sobre a ‘transição planetária’ e outros assuntos invadem a praia espiritista. Ainda tem aquela boa e velha preguiça de realizar uma análise crítica sobre tudo o que vem dos Espíritos [e dos encarnados também!!!]. Kardec, COMO SEMPRE é um oásis perdido em meio a uma imensidão de livros meia-boca, com qualidade questionável, lógica duvidosa e fundamentação doutrinária beirando a ignorância. 

Como não pudemos escrever um texto especial para iniciar o ano, desejamos que este trecho seja um belo pontapé inicial nas análises a serem feitas este ano. Que Deus abençoe a todos nós e que os bons espíritos sigam nos inspirando.

Boa leitura e até a próxima!

"Entre os adeptos do Espiritismo, encontramos entusiastas e exaltados, como em todas as coisas; são esses, geralmente, os piores propagandistas, porque se desconfia de sua facilidade de aceitar tudo sem exame aprofundado. O espírita esclarecido se protege do entusiasmo que cega, observa tudo friamente e com calma: é esse o meio de não ser vítima das ilusões e dos mistificadores. Fora a questão da boa-fé, o observador iniciante deve, antes de tudo, levar em consideração a seriedade do caráter daqueles a quem se dirige".

Fonte: Introdução ao Espiritismo. Organização e notas J. Herculano Pires. Textos de Allan Kardec. Editora Paidéia, p. 251.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Analisando o texto “EMMANUELISMO”?!

Foi dito em artigo anterior que todo adepto do Espiritismo deve ser bastante cuidadoso ao emitir uma opinião sobre algum princípio espírita, notadamente quando tenta oferecer uma complementação ou o relaciona com alguma área de pesquisa científica atual como a Física Quântica.
O mesmo pode ser dito sobre tudo o que vem dos Espíritos. Vários artigos já foram publicados [1] sobre este assunto e recomendo a leitura dos mesmos. O objetivo deste artigo é analisar a mensagem psicografada por Carlos Baccelli de autoria do Espírito que se intitula como Inácio Ferreira. O título do texto é o mesmo deste artigo e pode ser lido no blog Mediunidade na Internet [2].
O autor espiritual inicia seu texto reclamando que de quando em quando são publicadas em sites, blogs e periódicos espíritas, críticas sobre Emmanuel e sua obra que quase sempre descambam para o aspecto pessoal, no qual nem os desencarnados são poupados. É muito curioso observar ele reclamar da crítica, pois é muito natural que após a publicação de um texto surjam outros emitindo pareceres, sejam eles elogiosos, sejam eles apontando os equívocos, os exageros, entre outras coisas. Cabe analisar o porquê dele não gostar da crítica. Acaso ela não serve para nada? Aconselho aqui a leitura do artigo O Valor da Análise Crítica para maior aprofundamento quanto a este tema. Sobre isto, já afirmava Kardec que

“Os Espíritos bons jamais se ofendem [com as críticas], pois eles mesmos nos aconselham a proceder assim e nada têm a temer do exame. Somente os maus se melindram e procuram dissuadir-nos, porque têm tudo a perder. E por esta mesma atitude provam o que são”.

E que

 “A linguagem dos Espíritos superiores é sempre digna, elevada, nobre, sem qualquer mistura de trivialidade. Eles dizem tudo com simplicidade e modéstia, nunca se vangloriam, não fazem jamais exibição do seu saber nem de sua posição entre os demais. A linguagem dos Espíritos inferiores ou vulgares é sempre algum reflexo das paixões humanas. Toda expressão que revele baixeza, auto-suficiência, arrogância, fanfarronice, mordacidade é sinal característico de inferioridade. E de mistificação, se o Espírito se apresenta com um nome venerado” [3].

O que podemos inferir destas citações? Primeiro, que ele não é superior. Obviamente, se formos analisá-lo conforme nos orienta O Livro dos Médiuns, logo perceberemos que ele está situado entre a classe dos Espíritos inferiores e que os seus textos necessitam de extrema cautela ao serem lidos. Segundo, e não menos importante: se ele está no mesmo patamar que aqueles a quem ele deseja censurar, com que autoridade ele deseja avaliar se os críticos do Emmanuel têm gabarito moral e/ou doutrinário para emitirem pareceres sobre a sua obra? E ainda cabe mais um questionamento: como saber se este Inácio é aquele mesmo Inácio Ferreira, médico e a quem devemos respeitar a memória por tudo o que fez? Já houve alguma tentativa de realizar alguma forma de investigação que permitisse estabelecer a identidade deste Espírito como sendo o do médico desencarnado? Não é nossa intenção colocar em dúvida o trabalho do Baccelli, entretanto, questionamentos como esses não devem, nem deveriam, ser vistos como absurdos para quem conhece as dificuldades inerentes relacionadas a toda fenomenologia mediúnica. Em seguida ele comete um exagero difícil de deixar passar despercebido: afirma ser Emmanuel um dos integrantes da falange do Espírito da Verdade! Já pesquisamos um bocado e não encontramos justificativas para esta afirmação a não ser o desejo de fazer de uma opinião uma verdade (sem verificação). Embora exista uma mensagem em O Evangelho segundo o Espiritismo cujo autor assina como Emmanuel, como provar que este é aquele? Fundamentado em quais informações? Enxergo aí, e isto é uma hipótese, uma tentativa forçada de tentar legitimar toda a obra do Emmanuel, não através do que ela possa representar o que seria muito louvável, mas, através de uma pretensa ‘autoridade’ que ela possa adquirir com esta ligação com a falange do Espírito Verdade. Este é o tipo de informação que se encaixa na orientação do Codificador de que

“[...] Para tudo o que está fora do ensino exclusivamente moral, as revelações que alguém possa obter são de caráter individual, sem autenticidade, e devem ser consideradas como opiniões pessoais deste ou daquele Espírito, sendo imprudência aceitá-las e propagá-las levianamente como verdades absolutas” [4].
           
            De acordo com a citação acima, seria imprudência, senão irresponsabilidade, divulgar como verdade verificada informações deste teor. Irresponsabilidade também é supor que todos os que criticarem Emmanuel ou qualquer Espírito que tenha psicografado através do Chico são necessariamente desprovidos de conhecimento doutrinário ou de autoridade moral. E é esta a atitude do Espírito em sua mensagem como já dissemos mais acima. Diferente é quando o ofensor não apresenta argumentos, somente agressões. Entretanto, estes são uma minoria, embora suas opiniões não devam ser ignoradas pelo simples fato de que podem nos apontar caminhos novos, quando bem analisadas. Já diria Santo Agostinho [ao falar sobre o autoconhecimento] que a opinião dos que são contra nós são desprovidas do desejo de nos agradar, portanto, não tem interesse em mascarar a verdade sob uma falsa noção de discrição e ‘sentimento caritativo’ e por isso, quando bem analisadas, elas podem ser valiosíssimas.
            Da mesma forma querer atribuir ao Emmanuel a responsabilidade por intermediar o pensamento do Cristo e sem o qual o Espiritismo não teria se “caracterizado como o consolador prometido por Jesus, porque, evidentemente, na época em que viveu, Kardec teve que agir com a maior prudência a fim de que as suas obras não fossem censuradas pela Igreja” é um absurdo sem tamanho. Quer dizer que Jesus só tinha este Espírito em condições de servir de intermediário para transmitir seus pensamentos? Em lugar algum desta nossa vasta Terra se encontrariam outro médium e equipe espiritual em condições de fazer o mesmo? Este é um absurdo sem tamanho!
            Como se pode ver, o audacioso “repórter do além” consegue a proeza de exagerar o papel do protetor do Chico dentro do movimento espírita e ainda distorcer a história.  Sobre a Doutrina Espírita não ter se “caracterizado como consolador prometido”, é justamente o contrário o que encontramos em O Evangelho segundo o Espiritismo:

“Assim realiza o Espiritismo o que Jesus disse do consolador prometido: conhecimento das coisas, que faz o homem saber de onde vem, para onde vai e porque está na Terra, lembrança dos verdadeiros princípios da lei de Deus, e consolação pela fé e pela esperança” [5].

            Convenhamos que isto seja muito mais do que se ‘caracterizar’ como consolador prometido! E todas as outras afirmações contidas em O Evangelho segundo o Espiritismo, focando apenas uma das mais de quinze obras que formam a base fundamental dos ensinos espíritas, afirmando que o Espiritismo cumpria a promessa do Cristo como Consolador? Será que o Inácio não tem tempo de estudar as obras fundamentais do Espiritismo no mundo espiritual? E as Revistas Espíritas, será que ele nunca as estudou? Pois para afirmar que Kardec teve de agir com prudência para que suas obras não fossem censuradas pela Igreja é ignorar o Auto de fé de Barcelona conforme relato encontrado na Revista Espírita de 1861, no mês de novembro. E as perseguições sofridas pelo codificador nos anos posteriores, tanto pelos clérigos quanto pela imprensa bem como pelos ‘cientistas’ da época, como nos contam as páginas da Revista? Cabe citar ainda o terceiro diálogo do livro O que é o Espiritismo onde Kardec debate com um Padre. Vale à pena reler aquele diálogo para comparar com o que o Inácio afirma ao se referir à prudência do codificador, ou se ele não está usando de retórica para beneficiar o Emmanuel e elevá-lo ao patamar de autoridade espiritual inquestionável.
O que se pode observar é que o ‘Dr. Inácio’ precisa estudar um pouco mais o Espiritismo e sua história e deixar desse desejo louco de “pô-los (os críticos de Emmanuel) em seu devido lugar, a fim de que se recolham à mediocridade que lhes é própria”. Até porque, nitidamente, este desejo reflete a inferioridade moral em que ainda se encontra, não merecendo a sua opinião o peso que tenta dar-lhe. Pois uma coisa é o desejo de defender a verdade, outra coisa é uma louca vaidade de querer mostrar que os outros estão errados e ele está certo...
            Em outro ponto do seu texto não se sabe o que é pior: ele afirmar que Emmanuel reescreveu o Evangelho versículo a versículo, como o quinto evangelista que é ou afirmar que a obra mediúnica Paulo e Estêvão é a “mais fiel e completa história do Cristianismo nascente”... O que sobrou de prudência e sabedoria em Kardec faltou neste Espírito que se intitula ‘jornalista do além’! Onde estão os estudos históricos e os exames comparados que fundamentem esta opinião? Aonde o consenso universal para demonstrar esta autoridade do Emmanuel como ‘quinto evangelista’? Pois o único a afirmar isto é ele, Inácio Ferreira! O pior, é claro, é ver espíritas repetindo este discurso como se ele representasse a absoluta verdade. E convenhamos que um estudo de tal envergadura não seria ignorado com facilidade, principalmente se bem feito!
            Contudo, ele não perdeu a chance de tentar transformar opiniões pessoais em lei! E usa de um expediente melodramático ao se desvalorizar [vide o penúltimo parágrafo do seu texto] com o intuito de comover o leitor e fazê-lo aceitar muito mais facilmente as suas idéias. Em outra parte do seu texto ele defende a tese de que Chico Xavier seria a reencarnação de Kardec. Particularmente, analisando o perfil psicológico dos dois, tamanha é a discrepância entre ambos que não consigo imaginar qual a razão de existir quem defenda esta opinião. Basta analisar a vida dos dois, seus comportamentos, suas posturas diante dos ataques dos seus adversários, dos problemas existenciais. Uma análise como esta não tem o objetivo de desvalorizar um e elevar o outro, mas, destacar que são duas personalidades distintas. E como sabemos que a discussão além de longa é polêmica, pois as razões nunca são suficientes para encerrar o assunto, neste momento basta dizer apenas que não vejo lógica nesta opinião. Aqui, até que se prove o contrário, o único e mais forte argumento é a especulação vazia. Ah! E ainda vale destacar que ele acusa os críticos de Emmanuel de agirem ‘sorrateiramente’ para contestar a tese acima. É oportuno ressaltar que quem contesta esta tese não age às escondidas, mas, ‘mostra a cara’ e apresenta os seus argumentos, muito diferente deste Espírito que fica a todo o momento jogando o seu veneno disfarçado de “defesa da verdade”. Isto fica evidente quando ele declara: “No momento, é tudo o que posso fazer por vocês, sem me importar se venham, ou não, integrar a lista daqueles que, igualmente, têm me difamado”. Convenhamos que não necessariamente quem faça uma crítica dos textos deste suposto Inácio Ferreira deverá ‘difamá-lo’. Mais uma vez, ele aqui abandona a argumentação racional e parte para a apelação emocional.
            É por estas e outras que Kardec adverte que não devemos publicar tudo o que vêm dos Espíritos, ou, quando o fizermos, que seja com comentários e notas explicativas fundamentadas nos princípios espíritas. Pois nem sempre podemos ser juízes em causa própria – principalmente quando se trata de analisar algo que nós psicografamos. Existem muitos médiuns que se melindram com qualquer observação crítica feita sobre um material que, absolutamente, não é de sua autoria. É por isso que o médium deve cultivar a humildade, pois não ignorará nunca uma observação feita com base na lógica, no bom senso e fundada numa análise crítica. O médium orgulhoso, ao contrário, repelirá sistematicamente qualquer objeção crítica e se afastará de todos aqueles que não tiverem somente palavras elogiosas, mesmo que irrefletidas e extremamente superficiais, feitas mais para agradar do que para opinar. Não à toa, o codificador nos alerta, quanto ao que vem do mundo espiritual que

 “Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são de fato o reflexo do mundo corporal; encontramos neles os mesmos defeitos e as mesmas virtudes; há entre eles sábios, ignorantes e falsos sábios, prudentes e estouvados, filósofos, polemistas e sistemáticos; todos com seus antigos preconceitos e opiniões políticas e religiosas. Cada um diz o que pensa e o que falam quase sempre é opinião pessoal; eis por que não é para acreditar cegamente em tudo o que dizem os Espíritos” [6].

            Este trecho é importantíssimo, pois reforça a necessidade de prudência para com tudo o que venha do mundo dos Espíritos. Principalmente reforça a necessidade de encararmos os ditados mediúnicos como opiniões pessoais dos Espíritos que podem ser justos ou injustos, abrangentes ou limitados, verdadeiros ou falsos. Entretanto,

“Não devemos julgar os Espíritos pelo aspecto formal e a correção do seu estilo, mas sondar-lhes o íntimo, analisar suas palavras, pesá-las friamente, maduramente e sem prevenção. Toda falta de lógica, de razão e de prudência não pode deixar dúvida quanto à sua origem, qualquer que seja o nome de que o Espírito se enfeite” [3].

Assim, nossa conclusão ao ler os escritos do Espírito Inácio Ferreira é que deve ser lido com muita prudência, pois da mesma forma que ele expressa algumas idéias aproveitáveis [embora neste texto tenham sido muito poucas], ele também expõem idéias contrárias aos mais elementares princípios espíritas e até ao mais rudimentar bom senso. Confunde, ou ignora momentos e informações importantes sobre a História do Espiritismo e faz afirmações que, se não analisadas com cuidado, correm o sério risco de serem divulgadas como se fossem verdadeiras. Então, que cada um leia e tire suas próprias conclusões como nós tiramos as nossas!

Referências:
[3] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. LAKE. Cap. XXIV, item 266 e 267, 4ª questão.
[4] ________. O Evangelho segundo o Espiritismo. LAKE. Introdução, cap. II.
[5] ________. Idem. Cap. VI, item 04.
[6] PIRES, J. Herculano. Introdução ao Espiritismo. 1ª Ed. SP – Ed. Paidéia, 2009, p. 145.