terça-feira, 7 de setembro de 2010

Reflexões sobre o Espiritismo e o Espiritualismo

Conceitua-se o Espiritualismo como uma corrente filosófica que afirma a existência do espírito, considerando-o uma realidade independente da matéria e superior a ela. Tendo isto em vista, esclarece o codificador que, ”com efeito, o Espiritualismo é o oposto do materialismo; quem quer que acredite haver em si mesmo alguma coisa além da matéria é espiritualista; mas não segue daí que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações” [1].


José Herculano Pires defende que a origem das doutrinas espiritualistas está na mediunidade, pelo fato de ser ela inerente à natureza humana [6]. Até porque “sendo as manifestações [mediúnicas] a conseqüência do incessante contato dos Espíritos e dos homens, elas existiram em todos os tempos; estão na ordem das Leis da Natureza e nada têm de miraculoso, seja qual for a forma sob a qual se apresentam”. [5]


Sabemos como atestam as obras dos mais eminentes antropólogos e sociólogos que a crença na imortalidade da alma, em sua sobrevivência após a morte, nas comunicações com os Espíritos, e todas as suas conseqüências, perde-se na noite dos tempos. É por isso que encontramos indícios destas crenças na maioria dos documentos sagrados e profanos de todas as épocas.


“havia na antiguidade [...] alguns indivíduos que estavam em posse daquilo que consideravam uma ciência sagrada e da qual faziam mistério para os que consideravam profanos. Deveis compreender, com o que conheceis das leis que regem esses fenômenos, que eles recebiam apenas verdades esparsas no meio de um conjunto equívoco e na maioria das vezes alegórico” [2].


Sendo a mediunidade uma condição natural da espécie humana, compreende-se facilmente que as diferenças existentes entre as diversas escolas espiritualistas devem-se tanto à capacidade que tinham os homens de interpretarem e compreenderem estes fenômenos, quanto os interesses que motivavam estas interpretações. Na antiguidade, como nos indica a questão 628, alguns indivíduos julgando estar de posse de uma ciência sagrada julgaram por bem transmiti-los somente a quem considerassem aptos para apreender-lhes os princípios. Encontramos aqui a origem dos rituais de iniciação.


Todas as grandes religiões do passado tiveram duas faces. Uma aparente, outra oculta. É correto afirmarmos que debaixo de todos os símbolos materiais encontraremos sempre, e de forma oculta, um sentido profundo. Entretanto,


“a mediocridade dos homens não era apta a perceber as coisas do Espírito, e bem depressa as religiões perderam a sua simplicidade e pureza primitivas. As verdades que tinham sido ensinadas foram sufocadas sob os pormenores de uma interpretação grosseira e material. Abusou-se dos símbolos para chocar a imaginação dos crentes, e, muito breve a ideia máter ficou sepultada e esquecida sob eles” [10].


É exatamente na Idade Média que podemos sentir este abuso de forma mais chocante. Pois, foi a partir do momento em que assumiu a posição de religião do império romano que o Cristianismo - que seria representado pela então nascente Igreja Católica - começou a perder de vista os seus valores essenciais, e passou a incorporar elementos das religiões politeístas como forma de ampliar o seu poder de persuasão e o seu raio de ação.


Tanto que é neste período que se inicia a proibição, no mundo ocidental, de práticas antigas como a evocação dos Espíritos, a crença na reencarnação como lei natural, a crença na preexistência e sobrevivência da alma após a morte, bem como todas as conseqüências inerentes a estes ensinos. E uma das conseqüências para quem ousasse desobedecer a esta proibição era ser condenado às fogueiras da inquisição.


Todavia, é a partir de meados do século XIX que a humanidade seria novamente colocada frente a frente com os mesmos fenômenos tão bem conhecidos dos povos antigos. A princípio foram as mesas girantes que tanto nos EUA quanto na Europa, e mais particularmente na França, foram estudadas por homens de eminente saber, bem como, paradoxalmente tornaram-se o divertimento dos requintados salões parisienses. Quando surgiram as primeiras manifestações mediúnicas nos EUA formou-se um movimento que ficou conhecido como Moderno Espiritualismo. Figuras importantes do cenário mundial como Artur Conan Doyle, Victor Hugo, Epes Sargent, Alfred Russel Wallace, entre outros ficariam famosos por seus trabalhos em defesa da realidade dos fenômenos mediúnicos.


É esse o motivo pelo qual Allan Kardec criou as palavras Espírita e Espiritismo. Estes neologismos tinham a capacidade de exprimir, sem equívocos, as ideias relativas à Doutrina Espírita. E ainda disse que poderíamos nos designar, também, por espiritistas.


“Para as coisas novas necessitamos de palavras novas, pois assim o exige a clareza de linguagem, para evitarmos a confusão inerente aos múltiplos sentidos dos próprios vocábulos. As palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo têm uma significação bem definida; dar-lhes outra, para aplicá-las à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar as causas já tão numerosas de anfibologia” [1].


Como podemos observar, Kardec desejava distinguir os adeptos da nova doutrina dos adeptos das diversas escolas espiritualistas existentes, como o Catolicismo, o Protestantismo, o Budismo, entre outras. Ele também alertou que se tivesse dado à Revista Espírita a qualificação de espiritualista não lhe teria, de modo algum, especificado o objeto, pois ele poderia não dizer uma palavra sobre os Espíritos e até mesmo combatê-los sem deixar de atender ao seu título.


“Fossem os Espíritos uma quimera e seria ainda útil existirem termos especiais para aquilo que lhes concerne, porque são necessárias palavras para as ideias falsas como para as ideias verdadeiras” [3].


Neste momento nos defrontamos com um problema complexo e que tem dado margem a muitas confusões. É que os fatos mediúnicos, conhecidos de todos os tempos, são denominados por Kardec como fatos espíritas, mas, eles não são Espiritismo. Conforme elucida J. Herculano Pires “[...] o Espiritismo se serve dos fatos mediúnicos como de uma matéria-prima, para a elaboração de seus princípios, ou como de uma força natural, que aproveita de maneira racional” [7].


É por isso que para ele “o Espiritismo representa o momento em que o Espiritualismo, superando as fases mágicas do seu desenvolvimento, atinge o plano da razão, define-se num esquema cartesiano de ‘ideias claras e distintas’. É a isso que chamamos a estrela que saiu da nebulosa” [8]. É isto que Kardec deseja afirmar quando escreve que a Doutrina Espírita “como generalidade liga-se ao Espiritualismo, do qual apresenta uma das fases” [1].


Foi justamente por utilizar o método experimental para elaborar a doutrina que, como afirma o Codificador, o Espiritismo pôde “enfrentar o materialismo no seu próprio terreno e com as suas mesmas armas”. Desta forma, é o Espiritismo, como doutrina moderna e imbuída do espírito científico, o responsável por devolver ao Espiritualismo o prestígio perdido ante o avanço incontinenti das Ciências.


Este é um dos maiores motivos pelos quais devemos tomar muito cuidado com todas estas “verdades novas” que tem surgido através de médiuns, palestrantes e dirigentes espíritas vaidosos, que assumem ares de reveladores do novo mundo, ignorando que “o Espiritismo está certo ao condenar a formulação de teorias pessoais [...] e encarecer a necessidade da metodologia científica, para verificação da verdade espiritual” [9].


Diante de tudo o que escrevemos, fica-nos a esperança de ter auxiliado a que não seja mais possível confundir-se o Espiritismo com qualquer escola espiritualista como as diversas que podemos encontrar neste nosso Brasil e no mundo. E para finalizar, a palavra abalizada do Codificador: “[...] o que testemunhamos, hoje, portanto, não é uma descoberta moderna; é o despertar da Antiguidade, desembaraçada do envoltório místico que engendrou as superstições; da Antiguidade esclarecida pela civilização e pelo progresso nas coisas positivas” [4].



Referência bibliográfica:


[1] Kardec, Alan. O Livro dos Espíritos. Introdução, item I. Ed. LAKE.

[2] Idem, ibidem. Q. 628.

[3] Idem. O que é o Espiritismo. Segundo diálogo – o céptico, p.24. Ed. IDE.

[4] Idem. Revista Espírita, jan. de 1858, p. 24, FEB.

[5] Idem, ibidem. Abril de 1869, p. 151

[6] Pires, J. H. O Espírito e o Tempo. 1ª Parte – Fase Pré-Histórica. Ed. Paidéia.

[7] Idem, ibidem. P. 17.

[8] Idem, ibidem. p. 106.

[9] Idem, ibidem. p.105.

[10] Denis, Leon. Depois da Morte. P. 25. FEB.


Texto baseado em palestra dada no dia 05 de setembro de 2010 no C.E. Paulo de Tarso, em afogados.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Informando:

Meus caríssimos amigos e leitores,

estou passando pra informar que por motivos de ordem pessoal não estou conseguindo terminar três textos que já deveriam ter sido publicados. São questões espinhosas e que pedem minha completa atenção, me impedindo assim de continuar a divulgar através dos textos o que aprendo com minhas leituras. Ainda tem o fato de que estou com minha avó na UTI e, por isso, preciso dar uma atenção à meus familiares que sofrem mais do que eu com essa situação.

Mas, aviso que como tudo na vida estes problemas são também temporários e que em breve estarei retornando à normalidade.

Também queria informar que este tempo é importante pelo fato de que também preciso estudar pra poder escrever, né?!! :)

Então, recado dado, aguardo vocês em breve para comentarem os próximos textos.

Um forte abraço e fiquem com Deus!!!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

RESPONDA ESPIRITISMO!


Mensagem exibida no blog Espiritismo Comentado [http://espiritismocomentado.blogspot.com/] e em Observador Espírita [http://observadorespirita.blogspot.com/] e que reflete a importância de nos definirmos corretamente, não permitindo que mais confusões sejam propagadas como verdades.

Como não existe "Kardecismo", pelo simples fato da Doutrina Espírita não ser de Kardec, o que precisamos é esclarecer e não confundir!

Um texto escrito pelo Jáder Sampaio [Qual é o Senso do Censo? em Espiritismo Comentado] é bastante oportuno para avaliarmos o tamanho do problema que gerou este neologismo que deforma a compreensão do 'ser espírita'.

Então, quando um representante do IBGE bater na sua porta, responda que é Espírita e adepto do Espiritismo! E, que também pode ser Espiritista, no máximo, mas, NUNCA 'kardecista'!

Sem mais, um forte abraço!

Anderson Santiago

terça-feira, 6 de julho de 2010

Os Médiuns são os Intérpretes dos Espíritos - II

Como vimos na primeira parte, os Espíritos se comunicam pelo pensamento e a necessidade de vesti-los com palavras é nossa. Além disso, a depender do grau de desmaterialização do Espírito ele pode achar que do outro lado ainda precisa 'verbalizar' seu pensamento para ser entendido, o que não acontece com os que compreendem o mundo em que estão. Quanto à palavra passividade, esta também deve ser entendida conforme a explicação dada, além de ter a questão da influência do médium, que deve ser mais bem entendida.

Depreendemos de tudo o que foi dito que a responsabilidade do médium e o seu envolvimento no processo da comunicação são enormes, pois é ele quem “veste” o pensamento dos Espíritos e os converte em sinais ou códigos lingüísticos que permitam um perfeito entendimento da mensagem que se deseja passar. É por isso, também, que apesar de diversos Espíritos se comunicarem através de um médium, os ditados recebidos terão sempre o cunho pessoal dele, tanto na forma quanto no estilo.

E quando se trata de enfatizar a importância de uma mente bem arrumada e bem-provida de conhecimentos que resulte em facilidade para a comunicação, os Espíritos informam que:

“[...] segundo já foi dito em anterior instrução, vosso cérebro está frequentemente numa desordem inextricável, sendo para nós tão difícil quanto penoso mover-nos no Dédalo dos vossos pensamentos”. [2]

É justamente por este fato que quando os Espíritos encontram médiuns cujo cérebro está cheio de conhecimentos adquiridos em sua atual encarnação, e os seus arquivos mentais repletos de conhecimentos anteriores, latentes, e próprios a facilitar as comunicações, é óbvio concluir que preferirão servir-se dele, cujo processo de comunicação será mais fácil, do que servir-se de um de inteligência limitada e com conhecimentos anteriores escassos.

Nesse caso, encontram os Espíritos no cérebro do médium as palavras adequadas e que correspondem precisamente ao pensamento deles, independente dele ser intuitivo, semimecânico ou mecânico. Depreende-se daí que eles possuem maior preferência por médiuns flexíveis e experimentados. Até porque, o perispírito deles agindo sobre o de quem mediunizam, nada mais terão a fazer que impulsionar a mão para escrever, ou o centro nervoso correspondente ao órgão que deseje manipular.

Quando são obrigados a se servirem de médiuns pouco adiantados a transmissão do pensamento se torna demorada, pois precisam recorrer a formas imperfeitas de expressão, decompondo seus pensamentos e ditando palavra, por palavra, em um trabalho bastante penoso. É um trabalho semelhante ao de comunicar-se por meio de pancadas, onde indicam letra por letra até formarem as frases que traduzem o pensamento que desejam transmitir.

Recorremos neste ponto ao texto do Hermínio Miranda quando nos convida a refletir se já pensamos “em ditar um texto em inglês, por exemplo, a uma pessoa inculta, que mal fale português e que, ainda por cima, seja analfabeta”? Esta é, nestes casos, a dificuldade dos Espíritos. [7]

Essa a razão da felicidade deles quando encontram médiuns suficientemente aparelhados, “munidos de elementos mentais” que podem ser prontamente utilizados. E por este mesmo motivo explica-se a preferência por médiuns experimentados, que, além do conhecimento prático possuam os conhecimentos necessários para vestir seus pensamentos. O codificador justifica esta preferência quando diz que “se o médium não souber ler nem escrever, não dispõe nem mesmo das letras em seu cérebro. É então necessário que o Espírito lhe conduza a mão, como se faria a uma criança. Nesse caso há uma dificuldade material ainda maior a ser vencida”. [3]

Esclarecem os Espíritos, também, que embora o pensamento não seja em absoluto do médium, que o assunto não esteja presente em suas preocupações habituais, que o que eles falem não venha dele de forma alguma, o médium não deixará de exercer sua influência na forma, dando qualidades e propriedades características da sua individualidade.

Resulta de tudo o que dissemos, salvo raras exceções, que tanto do médium quanto dos meios que dispõem para transmitir o pensamento dos Espíritos, este pensamento ressente-se da imperfeição destes meios. É assim que o homem inculto ou o ex-escravo, mesmo analfabeto, poderão dizer as mais belas coisas, exprimir os mais elevados pensamentos filosóficos, científicos ou morais, falando como ex-escravo, pois, como sabemos para os Espíritos o pensamento está acima de tudo.

Dentro deste processo de captação, processamento e conversão da comunicação mediúnica, desde o pensamento do Espírito comunicante até o conhecimento do destinatário encarnado, é fácil perceber que o médium é o elo fraco da corrente.

Ressalte-se que é justamente através do mecanismo da comunicação mediúnica que perceberemos que a educação do médium não é exatamente como médium, mas como ser humano. Pois antes de ser um bom médium ele deve procurar ser uma boa pessoa. É exatamente isto o que encontramos na questão proposta por Kardec, sobre se o desenvolvimento da mediunidade anda de mãos dadas com o progresso moral do médium, ao que os Espíritos respondem:

“Não. A faculdade propriamente dita é orgânica, e portanto independente da moral. Mas já não acontece o mesmo com o seu uso, que pode ser bom ou mal, segundo as qualidades do médium”. [4]

Neste ponto observa-se a importância da influência moral do médium nas comunicações. Como ressalta Erasto, os médiuns somente atraem Espíritos da mesma natureza: se são sérios atrairão Espíritos sérios, se são levianos atrairão levianos. “Por isso é que [quando não são sérios] suas comunicações se mostram cheias de banalidades, frivolidades, idéias truncadas e, não raro, muito heterodoxas, espiriticamente falando”. [5] E quando o médium não é sério, ou é dado misticismos e superstições, um exame severo e escrupuloso se faz indispensável pelo simples fato de que em meio a coisas aproveitáveis, Espíritos hipócritas, sagazes, pseudossábios mesmo, insinuam com calculada perfídia e assustadora habilidade, fatos inventados, comentários mentirosos a fim de iludir a boa-fé daqueles que se dignam a dar-lhes atenção.

Entretanto, Erasto reafirma que “[...] onde, porém, a influência moral do médium se faz realmente sentir, é quando ele substitui, pelas que lhe são pessoais, as idéias que os Espíritos se esforçam por lhe sugerir e também quando tira da sua imaginação teorias fantásticas que, de boa-fé, julga resultarem de uma comunicação intuitiva”. [6]

Este é o objetivo maior da ‘educação mediúnica’, para ajudar o médium iniciante ou não, a analisar com clareza aquilo que é seu e aquilo que é do comunicante, e, principalmente, para permitir que ele expresse com o máximo de fidelidade o pensamento alheio. Ajunto a isto, também, aquilo que afirmei no meu texto Sobre o Estudo Comparado das Comunicações dos Espíritos.

O que fica de tudo o que foi escrito, é que a responsabilidade do médium é imensa, e que, como verdadeiro intérprete dos Espíritos, seu papel não deve ser passivo, em momento algum. E é justamente pelo fato de os Espíritos possuírem somente a linguagem do pensamento, e não a articulada, por meio de palavras, que transmitem aos médiuns seus pensamentos e deixam a cargo destes vesti-los corretamente, não substituindo, os médiuns, as ideias dos Espíritos pelas suas, evitando, assim, a desnaturação da mensagem. E mesmo compreendendo que a mediunidade independe da inteligência ou condição moral, o mesmo não se dá com o seu uso, podendo ser bom ou mau, de acordo com as qualidades dos médiuns.

Até porque, nestes tempos de renovação social, a sua missão é especial: eles são como árvores que devem distribuir o alimento espiritual aos seus irmãos, e por isso multiplicam-se, permitindo que o alimento seja abundante. Ao espalhar-se por toda a parte, em todos os países e classes sociais, além de não permitirem que haja deserdados ainda provam, aos homens, que todos são chamados. [1]

Bons estudos!

Referências:

[1] Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires, 61ª edição. São Paulo – LAKE, 2006, cap. XIX, item 10, p. 247.

[2] _____________. O Livro dos Médiuns. Tradução da 2ª edição francesa por J. Herculano Pires. São Paulo – LAKE, 2004, cap. XIX, Item 225, p. 196.

[3] Idem, ibidem. Cap. XIX, p. 198.

[4] Idem, ibidem. Cap. XX, item 226, p. 199.

[5] ______________. Revista Espírita. FEB, agosto de 1861, p. 356.

[6] Idem, ibidem. p. 357

[7] Miranda, Hermínio C. Diversidade dos Carismas. 4ª Ed. São Paulo, SP – Lachâtre, 2006, Cap. XVI, p. 389.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Os Médiuns são os Intérpretes dos Espíritos - I

“Os médiuns são os intérpretes dos Espíritos. Suprem o organismo material que falta a estes, para nos transmitirem as suas instruções. Eis porque são dotados de faculdades para este fim”. (Allan Kardec, [1])

Sabe-se que o intérprete é o indivíduo que serve como tradutor entre duas pessoas que não falam a mesma língua e que, a depender do seu conhecimento mais ou menos profundo acerca das duas línguas, sua tradução será mais ou menos fiel ao pensamento emitido por cada uma das duas pessoas.

O médium encontra-se nesta posição porque, estando ligado ao corpo que serve para a comunicação, e possuindo as ferramentas necessárias para o processo de captação, processamento e transmissão do pensamento dos comunicantes, pode transmiti-los convertendo-os, em palavra escrita ou falada.

Cabe definir antes de qualquer coisa que a palavra passivo que usaremos pode ser entendida de duas maneiras: no sentido de ficar indiferente ao que se passa com ele e no sentido de não deixar que seus pensamentos, preconceitos e atavismos pessoais interfiram na comunicação de que se faz intérprete. Esta explicação é importantíssima para que se entenda qual a interpretação que se deva fazer deste vocábulo quando usado neste artigo. Para o sentido de inerte, usaremos o SER passivo e no sentido de não interferir na comunicação, usaremos o ESTAR passivo ou o DAR passividade.

Podemos observar no capítulo XIX de O Livro dos Médiuns que, como informam Erasto e Timóteo, dois lúcidos e experimentados instrutores da espiritualidade, conforme opinião de Kardec, para as comunicações que os Espíritos mantêm uns com os outros, ou conosco, diretamente, elas realizam-se unicamente pela irradiação do pensamento.

Ainda segundo Kardec “o Espírito comunicante compreende todas as línguas [...], pois as línguas são formas de expressão do pensamento e o Espírito compreende pelo pensamento”. ([2] Ver a Revista Espírita de outubro de 1864, Ed. FEB, página 407)

E é justamente isto que afirmam os dois instrutores já citados, pois: “[...] os Espíritos não têm necessidades de vestir os seus pensamentos com palavras. Eles os percebem e os transmitem naturalmente entre si. Os seres encarnados pelo contrário, só podem comunicar-se pelo pensamento traduzido em palavras. Enquanto a letra, a palavra, o substantivo, o verbo, a frase, enfim, vos são necessários para percepção, mesmo mental, nenhuma forma visível ou tangível é necessária para nós”. ([3]; procurar na Revista Espírita de maio de 1859, uma nota à pergunta 43, na p. 180, Ed. FEB)

Aqui nota-se claramente a importância do médium como intérprete dos Espíritos, suprindo nestes o organismo material que lhes falta para transmitirem seus despachos. Muito interessante também é notar que os Espíritos comunicam-se pelo pensamento puro, e não precisam “falar”, como o fazemos aqui, enquanto encarnados, o que nos dá a entender que isto é um verdadeiro ‘atavismo’, ou seja, resquícios da necessidade de se comunicar através da fala que ainda permanece com os Espíritos comunicantes.

Cabe aqui, ainda, uma pequena reflexão sobre este ponto: Hermínio C. Miranda, notável escritor Espírita, em um de seus magníficos livros, o Diversidade dos Carismas [6], comenta que Regina (médium e personagem principal utilizada no ‘enredo’ deste livro) observa que nos livros de André Luiz todo mundo fala. Miranda entende que existem duas razões principais para que isto se dê. Primeira: os livros do André são narrativas dramatizadas, escritas em linguagem didática, na qual o pensamento já aparece convertido em palavras. Segunda: os diálogos reproduzidos pelo autor espiritual não são comunicações mediúnicas, mas conversações entre espíritos desencarnados.

Foi por isso que Kardec enfatizou o cuidado que devemos ter ao interpretar as expressões usadas pelos Espíritos, bem como seus ditados, nunca os tomando ao pé da letra para não nos expormos a grandes decepções. É por isso que precisamos aprofundar sempre o sentido de suas palavras e expressões quando apresentam a menor ambigüidade. Recomendação esta endossada pelos próprios Espíritos.

É por este motivo que ao dirigir-se ao Espírito encarnado no médium, como informaram os instrutores da Codificação a Kardec, eles não o fazem em francês, português, grego ou latim, mas pela “língua universal que é a do pensamento”. Importante esclarecimento que os Espíritos fizeram questão de reforçar.

Hermínio C. Miranda, no mesmo livro, comentando acerca deste assunto afirma que é “exatamente por isso, ou seja, por não se comunicarem por meio de palavras, eles transmitem aos médiuns seus pensamentos e deixam a cargo do instrumento vesti-los, obviamente, na língua própria do sensitivo”. [7]

Este raciocínio nos leva diretamente a outro problema: para traduzir as suas ideias numa linguagem articulada, transmissível através de algum código lingüístico, ele utilizará as palavras e conhecimentos disponíveis no vocabulário do médium. Ou seja: quando querem ditar alguma mensagem, espontaneamente ou não, eles agem sobre o cérebro, nos “arquivos mentais” deles, onde juntam aos seus materiais os elementos necessários fornecidos pelos médiuns. E tudo isto sem que o médium perceba. Essa é também a opinião de Kardec, quando afirma que “[...] o Espírito não se serve das ideias do médium, mas dos materiais necessários para exprimir os seus próprios pensamentos, existentes no cérebro do médium, e de que, quanto mais rico for o cérebro, mais fácil se torna a comunicação”. [5]

De acordo com o exemplo dado pelos dois instrutores desencarnados é como se eles retirassem da bolsa do médium o seu dinheiro e o dispusessem na ordem que mais lhe agradassem para melhor expressar uma soma, ou, no caso, um pensamento.

Tentando melhorar a compreensão do fenômeno eles explicam que se dá o mesmo quando olhamos diversos lugares com óculos coloridos, tendo lentes azuis, verdes ou brancas: embora os objetos e lugares pertençam ao mesmo trecho, embora com aspectos distintos, eles aparecerão sempre com a coloração dada pelas lentes.

É por isso que quando Kardec pergunta se o Espírito do médium exerce alguma influência sobre as comunicações que fluem por seu intermédio, os Espíritos respondem de maneira taxativa:

“Sim, pois se não há afinidade entre eles, o Espírito do médium pode alterar as respostas, adaptando-as às suas próprias ideias e às suas tendências. Mas, não exerce nenhuma influência sobre os Espíritos comunicantes. É apenas um mau intérprete”. [4]

O bom médium, desta forma, é aquele que transmite tão fielmente quanto possa o pensamento do comunicante, interferindo o mínimo que seja (como faz o intérprete), naquilo que este tem a dizer. Segundo os Espíritos, este é o motivo pela preferência por certos médiuns, pois eles procuram intérpretes que melhor simpatizem com eles e que transmitam com muito maior precisão seus pensamentos.

Sem que haja simpatia entre eles, uma verdadeira afinidade fluídica, o médium será sempre um entrave, oferecendo resistência e tornando-se um intérprete de má vontade e quase sempre infiel. Por isso ele jamais é passivo, ou melhor, ele só é passivo quando não mistura suas ideias com as do comunicante, sendo fiel ao trabalho de tradução mesmo que discorde do que está sendo dito. É um verdadeiro treinamento disciplinar.

Hermínio Miranda reitera, ainda, que não há fenômeno mediúnico sem a participação anímica. “O cuidado que se torna necessário ter na dinâmica do fenômeno não é colocar o médium sob suspeita [...], e sim, ajudá-lo a ser um instrumento fiel, traduzindo em palavras adequadas o pensamento que lhe está sendo transmitido sem palavras pelos Espíritos comunicantes” [7].

Até porque a alma do médium pode se comunicar como a de qualquer pessoa quando goza de certo grau de liberdade. E principalmente: é oportuno enfatizar que em nosso contexto terreno, a manifestação de seres desencarnados, seja em fenômenos de efeitos físicos ou inteligentes, não dispensa a atuação do médium.

Referências:

[1] Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires,
[2] _____________. O Livro dos Médiuns. Tradução da 2ª edição francesa por J. Herculano Pires. São Paulo – LAKE, 2004, cap. XIX, item 224, p. 192
[3] Idem, ibidem. Cap. XIX, p. 197.
[4] Idem, ibidem. Cap. XIX, q. 7, p. 188.
[5] Idem, ibidem. Cap. XIX, p.198.
[6] Miranda, Hermínio C. Diversidade dos Carismas. 4ª Ed. São Paulo, SP – Lachâtre, 2006, cap. XVI, p. 385.
[7] Idem, ibidem. Cap. III, p. 96.

Nota: esta é a primeira parte deste assunto que acho interessantíssimo e importantíssimo. A segunda parte, e última, será postada posteriormente.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Informativo:

Informamos aos nossos leitores que o texto anunciado e publicado foi retirado pra uma revisão a pedido do autor e após a advertência de uma querida leitora - a Zilda -.

Daqui para domingo postaremos talvez um texto novo ou a versão corrigida de Espiritismo e o Período da Cidadania.

Agradecemos as mensagens de alerta e as outras elogiosas.

Um forte abraço,

Anderson Santiago.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sobre o Estudo Comparado das Comunicações dos Espíritos

“Ele [o adepto, o médium] deve não somente esclarecer-se através de terceiros, mas também estudar todos os gêneros de comunicações, para aprender a compará-las” (Allan Kardec, [1], grifos nossos).

Nenhum espírita ignora que Kardec jamais abdicou de um expressivo rigor no trato das comunicações mediúnicas, principalmente naquilo que se refere aos sistemas ideológicos apresentados diversas vezes pelos desencarnados.

No texto colocado como epígrafe podemos observar que o cuidado de Kardec era o de alertar que o adepto, na leitura de qualquer livro ou texto, e os médiuns, em específico, estudassem os tipos de comunicações para que aprendessem a compará-las, realizando assim o primeiro controle qualitativo: o da razão.

Essa recomendação é vital porque mesmo que, conforme diz o ditado, quatro [ou mais] olhos vejam melhor do que dois, ainda assim não estamos dispensados da obrigação de pensar, de avaliar, de refletir. Os Espíritos não vieram para nos substituir naquilo que é responsabilidade nossa, mas para trabalhar conosco.

O estudo comparativo visa, justamente, preparar o indivíduo para melhor avaliar a informação recebida, principalmente, por via mediúnica. No capítulo X da segunda parte de O Livro dos Médiuns Kardec apresenta uma imprescindível classificação das comunicações mediúnicas, até porque, sendo infinita a variedade dos Espíritos no tocante à inteligência e moralidade, elas devem refletir a elevação ou a inferioridade de suas ideias, seu saber ou sua ignorância, seus vícios ou suas virtudes.

Um exemplo impactante do que dizemos está no capítulo XXIX, nº 346, 4º item, quando Kardec orienta que no tocante aos assuntos de estudo, para as sociedades espíritas, o “exame crítico e analítico das diversas comunicações” e a “discussão sobre os diversos problemas da ciência espírita” são uma fonte inestancável de elementos altamente valiosos e instrutivos.

Ainda afirma mais: “O valor da instrução que se recebe sobre qualquer desses assuntos, moral, histórico, filosófico ou científico depende inteiramente do estado do Espírito que se interroga. Caberá a nós o julgamento” [2].

Ou seja, o estudo comparado dos diversos gêneros de comunicações é de vital importância para a aceitação da mesma, tanto individualmente quanto por uma coletividade. E ainda reafirma a nossa responsabilidade de julgar e avaliar a qualidade da informação recebida, através da metodologia exposta na obra em destaque, conforme podemos deduzir deste trecho de A Gênese, obra lançada sete anos depois: “porque ela [a Doutrina Espírita] é deduzida do trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhes põem sob os olhos pelas instruções que a ele dão, instruções estas que o homem estuda, compara e das quais tira ele mesmo as suas conclusões e aplicações” [6].

Neste sentido J. Herculano Pires afirma que “Kardec sustentou sempre a necessidade de pesquisas para a comprovação de certos dados transmitidos por via mediúnica” [7] e o estudo comparado é uma delas.

Este assunto é tão importante que Kardec, para ratificar sua opinião – e a dos espíritos – escreveu o último capítulo de O Livro dos Médiuns sobre as dissertações dos espíritos. Nele, Kardec afirma que reuniu algumas comunicações espontâneas com a intenção de completar a instrução e confirmar os princípios expostos por toda a obra.

O número delas poderia ser maior, entretanto, ele preferiu aquelas que mais especificamente se referem ao futuro do Espiritismo, aos médiuns e às reuniões espíritas. São exemplos do gênero de comunicações sérias e servem, ao mesmo tempo, como instrução. No final do capítulo ele deu especial atenção às comunicações apócrifas com as observações necessárias para reconhecê-las.

Santo Agostinho, em uma destas mensagens, a de nº XVI, faz um alerta que cabe aqui para nossa reflexão:
“Aprendei a distinguir o joio do trigo. Semeai apenas o trigo e evitai espalhar o joio, porque este impedirá que o trigo germine e sereis responsáveis por todo o mal que decorrer disso. Assim, sereis responsáveis pelas doutrinas errôneas que divulgardes” [3].

Ela é bastante significativa. Será que nossos atuais editores espíritas refletem seriamente sobre isto quando estão analisando uma obra a ser lançada? E os médiuns, na ânsia de serem originais psicografando comunicações com informações quentinhas do mundo espiritual, mesmo quando incoerentes com os princípios espíritas, será que refletem sobra a sua responsabilidade?

As comunicações devem ser analisadas e comentadas cuidadosamente, avaliando as ideias apresentadas para saber se elas trazem um cunho de verdade. Esse exame quando feito com severidade é a melhor garantia contra a intromissão dos Espíritos mistificadores, garante Kardec.

O codificador também observa que a tática destes Espíritos é evitar a discussão quando se vêem combatidos de maneira vitoriosa por argumentos logicamente irresistíveis, recusando-se desdenhosamente a responder e determinam, ainda, que seus médiuns se afastem dos centros onde suas ideias não são aceitas. Graças a manobras sutis, que normalmente passam despercebidas, semeiam a dúvida, a desconfiança e a inimizade. Criticam a tudo e a todos sob a desculpa de interesse pela causa, formando grupinhos que logo rompem com a harmonia do conjunto.

Neste ponto é que entram as comunicações apócrifas, muitas vezes tão absurdas, embora assinadas por nomes que respeitamos, mas que o mais vulgar bom senso é capaz de demonstrar sua falsidade. Por outro lado, existem aquelas que conseguem disfarçar o erro pela mistura com princípios corretos de maneira tão sagaz que acabam iludindo e confundindo impedindo assim que se faça a distinção à primeira vista.

É por isso que, incontestavelmente, “submetendo ao crivo da razão e da lógica todas as informações e comunicações dos Espíritos, será fácil repelir o absurdo e o erro” [4].

Contudo, quando se estuda um texto sem se deixar influenciar, investigando o fundo dos pensamentos e o alcance das expressões, vendo recomendações pueris e ridículas ao lado de belas máximas seria preciso estar fascinado para ser enganado.

É por isso que Kardec deixa claro na sua última observação que só através de um estudo sério, metódico, com ajuda da experiência é que estaremos aptos a realizar um exame comparado. É ela, a experiência, que deve nos orientar em nossos estudos, nas análises das informações dos Espíritos, principalmente, porque quando uma verdade deve ser revelada à humanidade, ela é comunicada, por assim dizer, instantaneamente a todos os grupos sérios que possuem médiuns sérios e não a este ou aquele, com exclusão de todos os outros.

Até porque a malandragem dos Espíritos mistificadores ultrapassa, muitas vezes, tudo o que se possa imaginar. A arte com que dissimulam suas ideias, para melhor serem aceitos é digna de atenção. Entretanto, não podemos esquecer que não existem campos sem ervas daninhas para serem arrancadas pelo lavrador. E estas doutrinas errôneas, equivocadas são como pedras falsas que devemos aprender a distinguir, mas, somente um olho experiente consegue discernir com facilidade. Ensinam os Espíritos que, estando em um mundo ainda inferior, necessitamos de aprendizado para aprendermos a realizar esta distinção e que as falsas doutrinas têm a utilidade de nos exercitar na separação da verdade e do erro.

Desta forma, é justamente pelo fato de submetermos todas as comunicações a rigoroso exame, sondando e analisando cada ideia e expressão, em um estudo comparativo, à semelhança do que se faz em crítica literária e rejeitando tudo aquilo que seja contrário à lógica, aos conhecimentos científicos e espíritas atuais e ao bom senso que chegaremos à verdade. E é Kardec quem afirma que “este é o único meio, mas é infalível porque não existe comunicação má que resista a uma crítica rigorosa” [5]

Bons estudos!

Referências:
[1] Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução da 2ª edição francesa por J. Herculano Pires. São Paulo – LAKE, 2004, cap. XXIII, p. 223.
[2] Idem, ibidem, Cap. XXIX, p. 315.
[3] Idem, ibidem, Cap. XXXI, p. 336.
[4] Idem, ibidem, Cap. XXXI, p. 342.
[5] Idem, ibidem, Cap. XXIV, p. 236.
[6] ______________. A Gênese. Tradução de Victor Tollendal Pacheco; apresentação e notas de J. Herculano Pires. 21ª edição, São Paulo, LAKE – 2003, Cap. I, item 13, p. 15.
[7] Pires, J. Herculano. O Mistério do Ser ante a Dor e a Morte. 3ª edição. São Paulo – SP, Paidéia, 1996, p. 81.

Nota: este texto é um complemento às ideias apresentadas no artigo O Valor da Análise Crítica. E este mesmo texto foi publicado na edição de setembro de 2010 da Revista Internacional de Espiritismo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O Valor da Análise Crítica


Kardec sempre esteve atento ao fato de que cabe ao encarnado a análise crítica de todo o material recebido mediunicamente. Tanto que em seus 15 anos de estudos, em nenhum momento ele prescindiu da análise crítica para a aceitação de qualquer informação vinda dos espíritos.

Cabe ressaltar, antes de qualquer coisa, que a palavra crítica é aqui usada não no sentido popular de maledicência ou de censura, mas, sim, em seu significado próprio que, segundo o Minidicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, da Editora Lexicon, é “análise para avaliação qualitativa de algo”. Ou seja, uma análise que busca apreciar a qualidade de algo, seja um artigo, uma mensagem mediúnica, uma simples informação ou um livro. Desta forma, fazer a crítica de um livro ou teoria, seja ela de um encarnado ou desencarnado, não é necessariamente condená-lo.

É por isto que José Herculano Pires afirma que, “A crítica como avaliação é indispensável ao desenvolvimento da cultura, ao aprimoramento da inteligência. Sem a justa apreciação de livros e doutrinas estamos sujeitos a enganos que nos levarão a situações desastrosas. Há doutrinas apresentadas com roupagem literária e científica enganadora” [8].

O codificador evidencia que é necessário precaver-se de aceitar o que vem do mundo invisível sem tê-lo submetido ao controle da lógica e da razão, tendo em vista que é o que os bons espíritos recomendam sem cessar, nunca se melindrando com a crítica, porque de duas uma, ou estão seguros do que dizem ou não estão. Quando eles têm consciência de suas limitações são os primeiros a evidenciá-la [3].

Entretanto, bem sabemos que distinguir as comunicações falsas das verdadeiras nem sempre é fácil, porque é graças à gravidade da linguagem que espíritos pseudossábios ou presunçosos tentam impor as ideias mais falsas e os sistemas mais absurdos.

Acrescente-se que na opinião de Kardec “Separar o verdadeiro do falso, descobrir o embuste escondido numa exibição de palavras bonitas, desmascarar os impostores, eis, sem contradita, uma das maiores dificuldades da ciência espírita”. [1]

Encontramos no boletim do número de maio de 1860 a proposta de Kardec realizar, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, à semelhança do que se faz na crítica literária, como objeto de estudo, um exame aprofundado e detalhado de certos ditados, espontâneos ou não, que se poderiam analisar e comentar [2].

Para Kardec, este gênero de estudo teria a dupla vantagem de exercer a apreciação do valor das comunicações, e em razão desta apreciação crítica, de desencorajar os espíritos enganadores que vendo suas palavras analisadas ponto a ponto, controladas pela razão e rejeitadas desde que tenham um sinal suspeito, acabariam por compreender que perdem seu tempo. Quanto aos Espíritos verdadeiramente superiores, nada tendo a temer deste exame, que eles mesmos encorajam, poder-se-ia chamá-los para pedir-lhes explicações e desenvolvimentos sobre as partes de suas comunicações que necessitassem de maiores esclarecimentos.

É por isto que Kardec afirma na Revista Espírita de 1869 [4] que as comunicações dos Espíritos são opiniões pessoais que não devem ser aceitas cegamente. Que em nenhum momento devemos renunciar ao nosso julgamento e livre-arbítrio, pois seria dar prova de ignorância e leviandade aceitar como verdades absolutas tudo o que venha dos Espíritos. Eles dizem o que sabem e cabe a nós submeter-lhes os ensinos ao controle da lógica e da razão.

Em absoluta concordância com o que foi dito aqui, Santo Agostinho afirma: “Observai e estudai cuidadosamente as comunicações que recebeis; aceitai o que a vossa razão não rejeitar; repeli o que a choca; pedi esclarecimentos sobre as que vos deixam na dúvida”. [5]

Diante do que foi exposto, não seria hora do movimento espírita brasileiro retomar a proposta de Kardec feita no ano de 1860 e formar grupos de estudos voltados para a análise dos ditados dos espíritos, questionando-os e criticando palavra por palavra o que afirmam? Quantas obras publicadas atualmente e erroneamente chamadas de espíritas não seriam muito melhor avaliadas se todos nos preocupássemos em realizar este filtro?

Que fique claro, de antemão, que isto não deveria, nem deve, ser prerrogativa de um grupo, ou de uma federação, apenas, mas o dia a dia comum dos espíritas que se reúnem para estudos e que, esquecidos do valor das evocações, poderiam filtrar muito melhor as informações trazidas pelos espíritos antes de supor que a mediunidade depende exclusivamente da moral para afastar os riscos de mistificação. Ensinam os espíritos em O Livro dos Médiuns que os medianeiros podem ser, e normalmente o são, testados recebendo mensagens ou ditados de espíritos galhofeiros ou pseudossábios no intuito de testar a sua atenção e perspicácia.

E o principal, que sua opinião, ou a do Espírito que se manifesta, isolada, não constitui a verdade, senão uma opinião como a de qualquer outro podendo estar correta ou incorreta, precisando, como afirma Kardec, ser referendada pelo consenso universal, conforme podemos ler abaixo:

“Esta universalidade do ensino dos Espíritos faz a força do Espiritismo. (...) O primeiro controle é, sem contradita, o da razão, ao qual é necessário submeter, sem exceção, tudo o que vem dos Espíritos. (...) A concordância no ensino dos Espíritos é, portanto o seu melhor controle, mas é ainda necessário que ela se verifique em certas condições. (...) A única garantia segura do ensino dos Espíritos está na concordância das revelações feitas espontaneamente, através de um grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em diversos lugares” [6].

É com muito pesar que observamos estar o movimento espírita brasileiro agindo ao avesso do que tanto escreveu, afirmou e exemplificou o Codificador. Pois o que encontramos em nosso movimento atualmente é um sentimento de aversão à análise crítica, mesmo quando feita dentro de todos os limites pedidos pela educação e bom senso.

Como podemos pensar em ‘atualizar’ a Doutrina Espírita se cerceamos a liberdade de quem deseja fazer crítica, e das boas, e mascaramos como bons certos ditados confusos, onde falta coerência e sobram palavras técnicas e muita ‘caridade’ e ‘amor’ num discurso vazio?

Diante de tudo o que foi visto acima, é fácil observar a importância da análise crítica de todas as informações, principalmente as mediúnicas. Até porque não é sem razão que o Codificador afirmou, em A Gênese, que a revelação espírita “é deduzida do trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhes põem sob os olhos pelas instruções que a ele dão, instruções estas que o homem estuda, compara e das quais tira ele mesmo as suas conclusões e aplicações”. [7]

Se quisermos fazer ‘evoluir’ o Espiritismo, devemos nos lembrar de que a doutrina deve caminhar como um navegante experiente, "de sonda nas mãos e consultando os ventos". Ou, nos dizeres de Herculano Pires, pela investigação humana, usando a metodologia da Ciência Espírita e consultando os espíritos, analisando, comparando e questionando os seus ensinos. Não de dois ou três, mas de vários.

Bibliografia:

[1] Kardec, Allan. Revista Espírita. Abril de 1860, p. 171. FEB.
[2] Idem, ibidem. Maio de 1860, p. 202.
[3] Idem, ibidem. Julho de 1860, p. 326.
[4] Idem, ibidem. Abril de1869, profissão de fé espírita americana, p. 150.
[5] Idem, ibidem. Julho de 1863, sobre as comunicações dos espíritos, p. 310.
[6] Idem. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires, 61ª edição. São Paulo – LAKE, 2006, Introdução, p. 17.
[7] Idem. A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Victor Tollendal Pacheco; apresentação e notas de J. Herculano Pires. 21ª edição, São Paulo; LAKE, 2003, capítulo I, item 13, p. 15.
[8] Pires, José Herculano. A Pedra e o Joio.


* Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo, na edição de Agosto de 2010.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Dois anos de muita alegria e estudos

Olá meus queridos amigos e leitores.

É com muita satisfação que venho informar-lhes que, amanhã, este blog estará completando 2 anos de muito estudo e dedicação à Doutrina Espírita.

E como o objetivo deste blog são as análises, amanhã estarei publicando um texto especial justamente sobre a importância da análise crítica de tudo quanto seja publicado ou opinado em nosso movimento.

Todos sabemos que a avalanche de livros publicados por editoras espíritas e não espíritas, por pessoas muitas vezes descomprometidas com qualquer fundamentação doutrinária, estão lotando as livras espíritas ou não.

É neste momento que a correta formação doutrinária, assunto que muito preocupou e preocupa escritores e pensadores espíritas de todas as épocas.

J. Herculano Pires, um fabuloso escritor espírita, jornalista, professor de Filosofia e defensor do Existencialismo Espírita, certa vez afirmou:

"Sem a formação doutrinária, não teremos um movimento espírita coeso e coerente. E, sem coesão e coerência, não teremos Espiritismo. Essa a razão por que os Espíritos Superiores confiaram às mãos de Kardec o pesado trabalho da Codificação. Kardec teve de arcar, sozinho, com a execução dessa obra gigantesca. Porque só ele estava em condições de realizá-la".

Como exigir novas revelações aos espíritos se nós não sabemos como avaliar e verificar as informações transmitidas? Como realizar com proveito uma pesquisa de aprofundamento sobre as temáticas atuais se não temos uma ferramenta indispensável para estes estudos: a evocação? Pois Kardec deixou claro que as revelações espontâneas, como as vemos nos dias de hoje, são de alto valor instrutivo, entretanto, nunca deveríamos nos esquecer do consenso universal [o tão discutido e polemizado CUEE - Controle Universal do Ensino dos Espíritos exposto na Introdução do Evangelho segundo o Espiritismo e da Revista Espírita de 1864] para o correto estabelecimento de novos princípios espíritas.

"Enquanto não compreendermos que Espiritismo é cultura, as tentativas de unificação do nosso movimento não darão resultados reais. Darão aproximações arrepiadas de conflitos, aumento quantitativo de adeptos ineptos, estimulação perigosa de messianismos individuais e de grupos. Flamarion, que nunca entendeu realmente a posição de Kardec, e chegou a dizer que ele fez obra um tanto pessoal, como se vê no seu famoso discurso ao pé do túmulo, teve, entretanto, uma intuição feliz quando o chamou de bom senso encarnado.

Esse bom senso é que nos falta. Parece haver se desencarnado com Kardec, e volatizado com Denis. Hoje, estamos na era do contra-senso. Os mesmos órgãos de divulgação doutrinária que pregam o obscurantismo, exibem pavoneios de erudição personalista, em nome de uma cultura inexistente. Porque cultura não é erudição, livros empilhados nas estantes, fichário em ordem para consultas ocasionais. Cultura è assimilação de conhecimentos e bom senso em ação"
.

"A formação espírita exige ensino metódico mas, ao mesmo tempo, livre. Foi o que os Espíritos deram a Kardec: um ensino de que ele mesmo participava, interrogando os mestres e discutindo com eles. [Não observamos esta mesma liberdade por parte dos reveladores atuais, faltam diálogo, estudo, pesquisa, sabatinando o autor espiritual na busca pela mais completa tranparência e fidelidade à verdade] Por isso, não houve infiltração de mistificadores na obra inteiriça, nesse bloco de lógica e bom senso, que abrange os cinco livros fundamentais de Codificação, os volumes introdutórios e os volumes da Revista Espírita, redigidos por ele durante quase doze anos de trabalho incessante".

"Precisamos de expositores didáticos, servidos por bom conhecimento doutrinário, arduamente adquirido em estudos e pesquisas. Expor os temas fundamentais da Doutrina, não é falar bonito, com tropos pretensamente literários, que só servem para estufar vaidade, à maneira da oratória bacharelesca do século passado".

"Precisamos definir a posição cultural espírita perante a nova cultura dos tempos novos. E só faremos isso através de organismos culturais bem estruturados, funcionais, dotados de recursos escolares capazes de fornecer, aos mais aptos e mais sinceros, a formação cultural de que todos necessitamos, com urgência".


Estes são trechos do livro "O Mistério do Bem e do Mal" de José Herculano Pires.


É por tudo isto, pela necessidade de pensarmos verdadeiramente o Espiritismo que idealizamos este blog. E é por isto, ainda mais, que escrevemos o texto que vocês poderão ler amanhã. Um texto feito com imenso carinho e, ai de mim, sem a menor pretensão de ser o dono da verdade, ou a única cabeça pensante do movimento. Estou apenas fazendo a minha parte, conforme inspiração da Espiritualidade.

Então, espero por todos vocês amanhã, para leitura e comentários deste novo texto e para comemoração de mais um ano no ar, ou melhor, pela vitória de poder estar há mais de dois anos e com mais de 6. 000 visitantes de vários países, inclusive o Brasil.

Um fraterno abraço a todos e até amanhã!!