quinta-feira, 28 de julho de 2011

VI SIMESPE – IMPRESSÕES GERAIS


Aconteceu nos dias 15, 16 e 17 de Julho no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda, o VI Simpósio de Estudos e Práticas Espíritas de Pernambuco, ou SIMESPE. O tema desta edição foi “A Ciência a caminho da espiritualização - A importância do Espiritismo no processo evolutivo do ser”. Tema importantíssimo, atual e que reflete a preocupação dos organizadores do evento em abordar o aspecto científico da doutrina, não deixando que somente o moral (entendido por muitos como religioso) tenha prevalência. O objetivo desta resenha é dar uma opinião pessoal de quem participou de todo o evento e tentar permitir que o leitor deste blog possa ter uma ideia do que se passou. E espero que o leitor consiga “sentir” um pouco do que eu senti ao participar de tão fantástico evento.
            O VI SIMESPE é uma realização do Grupo Espírita Seara de Deus, que fica localizado no bairro do Janga, em Paulista, Pernambuco. Os palestrantes convidados, colocados aqui por ordem de apresentação no evento, foram: Carlos A. Baccelli (MG), Sérgio Lopes (RS), Décio Iandoli Júnior (MT), Irvênia Prada (SP), Sérgio Felipe de Oliveira (SP), Ângela Maria Menezes (PE) e Geraldo Lemos Neto (MG).
            No primeiro dia houve a apresentação musical da orquestra Criança Cidadã. Momento belíssimo, onde pudemos nos harmonizar com as músicas clássicas tocadas enquanto uma forte tempestade caía do lado de fora do Teatro Guararapes. Após este momento de arte, o conferencista responsável por abrir oficialmente o evento foi o Carlos Baccelli, conhecido médium espírita mineiro. Era a primeira vez que assistia a uma apresentação do Baccelli, e estava disposto a analisar com cuidado a sua fala, da mesma forma que fizemos com um texto de sua autoria [1].
            O assunto de sua responsabilidade era o mesmo do tema central. Ele é um bom palestrante, não possuindo fala monótona, mas agradável. Cabe observar, entretanto, que seu excessivo apego ao Chico e os Espíritos que se manifestaram por sua psicografia tornaram sua apresentação limitada, em minha opinião, em termos de conteúdo e de bibliografia a ser utilizada. Ele poderia relembrar trechos das obras de Léon Denis, Gabriel Delanne, Hermínio Miranda, ou, até mesmo, do Herculano Pires que ele citou em um rápido momento e de forma bastante sucinta. Para Baccelli, o Espiritismo não deve se afastar da Ciência para que não caia no domínio da exploração, do desvirtuamento, da crendice. Em sua apresentação, ele se utilizou deste trecho extraído da Gênese:

“O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre um certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará” [2].

            Entretanto, embora ele enfatizasse a importância do conhecimento científico para que o Espiritismo não acabasse estagnado como uma religião como as muitas que existem em nosso mundo não apontou um meio para que a doutrina se mantivesse sempre atualizada. Seria o Espiritismo, a partir de hoje, apenas repositório dos conceitos da Ciência e dos ditados espontâneos dos Espíritos? Não haveria uma metodologia pela qual os Espíritas possam trabalhar para produzir conhecimentos? Ou estaríamos irremediavelmente dependentes da Metapsíquica, Parapsicologia, Psicotrônica, TCI ou qualquer outro ramo da ciência para fazermos o Espiritismo progredir? Façamos uma reflexão em conjunto: Kardec assevera que a revelação espírita possui um duplo caráter [3]: como revelação divina ela é de responsabilidade dos Espíritos, que a provocaram; como revelação científica ela é de responsabilidade dos homens, primeiro por não ser privilégio de nenhum indivíduo, segundo por ser sua obrigação a observação, a análise, a pesquisa, o estudo comparado das comunicações e a busca do consenso universal para encontrar a verdade. Como sintetiza Kardec, “numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que sua origem é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a sua elaboração é o resultado do trabalho do homem. Então cabe a pergunta: nos centros e federações espíritas espalhados pelo nosso Brasil e o mundo existe algum grupo de pesquisas espíritas genuíno? Que pratique as evocações e dialogue com os Espíritos no intuito de dirimir as dúvidas que surgem ao estudar as diversas obras psicografadas após Kardec? Existe entre estes grupos de pesquisa uma rede de intercâmbio que permita a troca de conhecimentos e experiências, facilitando, naturalmente, que ocorra o consenso universal tão apregoado pelo codificador principalmente no capítulo II da introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo? Outra coisa notável é a dependência das comunicações espontâneas para a produção de conhecimento.  Devemos realizar um verdadeiro estudo comparado das obras psicografadas existentes e um exame atento, severo e escrupuloso para podermos aceitar suas informações como princípios verificados. Já abordamos este tema em alguns artigos [vide os textos: O Valor da Análise Crítica e Sobre o Estudo Comparado] e deixaremos somente a opinião do codificador [abaixo] para reflexão:

“Algumas pessoas pensam que é preferível não fazer perguntas, convindo esperar o ensinamento dos Espíritos, sem o provocar. Isso é um erro. Não há dúvida que os Espíritos dão instruções espontâneas de elevado alcance que não podemos desprezar, mas há explicações que teríamos de esperar por muito tempo se não solicitássemos. Sem as nossas perguntas, O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns ainda estariam por fazer ou pelo menos seriam muito mais incompletos: numerosos problemas de grande importância estariam ainda por resolver” [4].

Percebe-se por este trecho que a postura adotada em muitos centros espíritas neste nosso Brasil diverge daquilo que pensavam Kardec e os Espíritos Instrutores da Nova Revelação. Pelo simples fato de que não é um consenso isolado, nem a opinião de três ou quatro Espíritos que fará com que uma informação se torne princípio verificado, é necessário que se forme uma rede de pesquisas nos moldes do que fazia Kardec em sua época, mesmo não dispondo de serviços e tecnologia como sedex e internet. Muito menos computadores, gravadores de vídeo e voz, etc.
Como se pode observar, não basta apenas afirmar que o Espiritismo deve acompanhar a Ciência para não parar no tempo. Deve-se esclarecer como ele continuará progredindo. E infelizmente o Baccelli não contribuiu muito para esclarecer este ponto. Até porque, conforme reflexão proposta por Gabriel Delanne “o Espiritismo não é uma religião: não tem dogmas nem mistérios nem ritual. É uma ciência de experimentação, da qual emanam consequências morais e filosóficas” [5].
            Outros pontos cabem ser citados sobre a fala do Baccelli: 1) O momento em que afirma (mesmo sem provas nem estudos que possam fundamentar esta opinião) que Emannuel seria o ‘quinto’ evangelista, cabendo-lhe, junto ao Chico, ser o “médium do Cristo” (exagero que o próprio Chico reprovaria); 2) Elevar ao nível de verdade verificada a informação constante em Nosso Lar sobre o “tráfico de alimentos” na colônia espiritual que dá nome ao livro (mesmo com os Espíritos afirmando, desde o tempo de Kardec, que é a densidade do perispírito [...] nos Espíritos inferiores [...] que determina a persistência das ilusões da vida terrena; [...] (tanto) que pensam e agem como se ainda estivessem na vida física, tendo os mesmos desejos e quase poderíamos dizer a mesma sensualidade” [6, grifos nossos]); 3) Manifestar surpresa com os conhecimentos apresentados pelo instrutor Aulus (Vide Nos Domínios da Mediunidade) por supor que pouco tempo teria um Espírito para apresentar tais conhecimentos após pouco mais de 100 anos da existência do Espiritismo (comparando com a data de lançamento da referida obra), ignorando ele os conhecimentos apresentados por Erasto, Timóteo e Sócrates, conforme podemos notar com mais ênfase em O Livro dos Médiuns e O Evangelho segundo o Espiritismo, tanto que o codificador chega a considerar Erasto um Espírito Superior; 4) Ele comete o exagero de elevar as mensagens dadas por diversos Espíritos, e reunidos em livros de mensagens como dignos de conter informações doutrinárias de relevo. Embora seja sim, muito interessante, a proposta de estudar tais livros e tais mensagens, é claro que não podemos exagerar ao supor nelas revelações surpreendentes.
Enfim, ressalvados estes pontos, retornei ao meu lar satisfeito com o primeiro dia do SIMESPE, com a apresentação da orquestra e do Carlos Baccelli e aguardando com certa ansiedade o segundo dia.
            A primeira apresentação do sábado ficou a cargo do gaúcho Sérgio Lopes. Sua abordagem foi sobre o tema “Causas Espirituais dos Transtornos Mentais – Psiquismo Humano e Mediunidade”. Palestrante agradável de escutar soube conduzir bem o seu tema, embora tenha ficado um gosto de que poderia ter usado mais referências para abordar o tema. Que fique clara esta observação, que vale para todos os palestrantes: embora, no geral, as palestras tenham sido muito boas, a impressão dada é a de que os temas poderiam ser mais aprofundados, gerando muito mais reflexões a nós participantes.
            Um exemplo utilizado na apresentação vale a pena ser mencionado: ao abordar a questão das influências espirituais como causas de determinados transtornos, ou mesmo da influência do Espírito no processo de adoecimento do corpo físico, usou o Sérgio da figura do rádio para simular o corpo físico, o perispírito para exemplificar as ondas transmitidas para o rádio e a emissora geradora destas ondas para exemplificar o Espírito. Conforme sejam as ondas emitidas pela emissora, assim será a música produzida pelo rádio. Da mesma forma, conforme sejam os pensamentos produzidos pelo Espírito, transmitidos pelo perispírito assim será a situação do corpo físico: equilibrado ou desequilibrado. Ou como a música, afinada ou desafinada.
            Ele deu ênfase também a que se entenda a reencarnação como um processo educativo utilizado pela Providência Divina, em nosso benefício e não somente como uma punição pelo que fizemos no passado. A vida é sempre uma oportunidade para buscarmos a felicidade, a sabedoria, a transcendência.
            Muito sábia, também, foi a utilização de uma estória chamada “a ilha das emoções” para exemplificar a importância de não sermos egoístas, vaidosos, avarentos, mas, sim, que possamos buscar viver e doar amor, compaixão, bondade, gentileza. Cada emoção é comparada com alguns sintomas presentes em algumas síndromes que tanto maltratam a nós, Espíritos encarnados e desencarnados. Resumindo, a palestra dele foi muito boa, e se não escrevo muito foi por causa do sono que me atrapalhou em alguns momentos. A forte chuva no dia anterior não ajudou muito a chegar nem a sair do evento com rapidez suficiente para permitir um descanso satisfatório.
            O segundo conferencista do dia a se apresentar foi o Décio Iandoli Júnior, que é médico e estava incumbido de abordar o tema “Contribuição da Física Quântica no processo de interação mente/corpo – Comprovações científicas das informações de André Luiz”. Assunto bastante delicado e que foi tratado com extremo respeito e prudência pelo Décio. Diferentemente do que pudemos analisar no texto do Baccelli [1], já publicado neste blog, o Décio teve muito cuidado para não cair em exageros.
Ele iniciou sua abordagem apresentando uma síntese do estudo e desenvolvimento da Física desde as primeiras observações da realidade material, sensível pelos primeiros filósofos e pensadores até os avançados estudos em torno da estrutura dos átomos, quarks e todo o universo infinitamente pequeno proporcionado pela Física Quântica. Sobre este tema, sugiro a leitura de um ótimo livro de autoria de Marcelo Gleiser intitulado A Dança do Universo. Neste livro, o autor faz um passeio entre as primeiras tentativas de explicação do universo até a revolução proporcionada pela ciência moderna. Um caminho idêntico ao que tentou fazer, embora muito resumidamente, o Décio. Embora o autor se considere ateu, a obra é leitura obrigatória para quem deseje compreender o progresso da ciência.
Em seguida o Dr. Iandoli abordou a importância que teve para a ciência a fragmentação do saber permitindo assim a sua divisão em partes sucessivas para que o homem pudesse aprofundar ainda mais seus conhecimentos. Entretanto, esta visão cartesiana se tornou prejudicial pelo fato de cada especialista acabar limitado em seus conhecimentos, pois normalmente um indivíduo passa dez, vinte anos estudando apenas uma área, o que acaba gerando uma visão incompleta do mundo. Como exemplo, ele contou a seguinte estória: uma pessoa encontra-se em frente a um prédio (que podemos chamar de faculdade), com várias salas (uma área de estudos, p. ex. biologia ou psicologia); escolhendo uma sala, essa pessoa escolhe também um armário e neste armário escolhe uma gaveta passando a estudá-la por uns 25 anos. Qual seria a reação desta pessoa se alguém viesse lhe perguntar após todo esse tempo qual seria a cor do prédio? Este é um exemplo pertinente, pois tem muita gente que faz o mesmo com o Espiritismo. Afeiçoa-se com o lado moral/religioso do Espiritismo e passa a estudar com afinco este aspecto e todas as obras disponíveis que abordem o assunto. Aqui ou acolá, fala sobre o aspecto filosófico (que acha chato e enfadonho) e sobre o científico (que mesmo sendo a base da doutrina, lhe parece muitíssimo difícil). Qual seria a resposta deste indivíduo se alguém viesse lhe perguntar por que a doutrina espírita é Ciência? E porque ele é Filosofia? E se essa pessoa não se se contenta com respostas superficiais, saberia ele aprofundar o assunto, se permaneceu tanto tempo focado em apenas um aspecto?
A apresentação dele foi ponderada o suficiente, e, ao contrário do que fez o Baccelli em seu artigo, ele soube fundamentar muito bem a sua defesa da conexão entre trechos do André Luiz e alguns avanços da Física Quântica. Embora eu endosse a fileira dos que pedem muita calma e prudência ao envolverem o Espiritismo e a Física Quântica, seus raciocínios foram claros e lógicos. Tudo bem que ele falou mais das nossas escolhas, da influência do observador sobre a realidade, daquilo que está mais próximo da nossa realidade sensível, material e não da espiritual, querendo forçar conceitos de hiperespaço ou universos paralelos como se fossem teorias explicativas da realidade espiritual. Entretanto, eu queria ter tido a possibilidade de estar acompanhado de um colega físico [o Alexandre Fontes da Fonseca, por exemplo] para que pudesse analisar com mais profundidade a argumentação utilizada pelo Iandoli Júnior.
Para encerrar os comentários sobre esta conferência, de acordo com a exposição do Dr. Iandoli, vale ressaltar que conforme a teoria quântica a realidade como a entendemos surge como um resultado [colapso] da escolha que fazemos dentro de um leque de possibilidades. Das personalidades citadas por ele, anotei os nomes Pin Van Loomel e Herms Romijin, sendo que o primeiro também fora utilizado pela Irvênia Prada em sua conferência. Outro que merece ser lembrado é o Edgar Morin, também citado. E o encerramento da sua palestra foi sobre a possibilidade de união dos conhecimentos da Física, Filosofia e da Biologia, como exemplo da importância da fusão dos conhecimentos para a percepção da realidade como um todo, resultando em uma visão global, holística. Ao contrário da visão parcial gerada pela fragmentação do conhecimento, como acontece atualmente, onde temos que escolher uma gaveta, entre as várias contidas no armário para estudarmos detalhadamente. No fim, acabamos por não saber nem quantas gavetas havia naquele armário se não soubermos buscar o ‘todo’.
A terceira apresentação do dia foi de responsabilidade de Irvênia Prada para abordar o tema “A trajetória do Ser espiritual – Da animalidade à angelitude – Evolução e funções do cérebro como órgão de manifestação da mente”. Sua apresentação foi muito instrutiva e ela soube explicar muito bem o tema. Questões como ‘são médiuns os animais’, ou, ‘por que sofrem os animais’ foram muito bem respondidas. A primeira já foi respondida desde o lançamento de O Livro dos Médiuns, quando Erasto assim se expressa:

“Sabeis que tiramos do cérebro do médium os elementos necessários para dar ao nosso pensamento a forma sensível e apreensível para vós. É com o auxílio dos seus próprios materiais que o médium traduz o nosso pensamento em linguagem vulgar. Pois bem: que elementos encontraríamos no cérebro de um animal? Haveria ali palavras, letras, alguns sinais semelhantes aos que encontramos no homem, mesmo o mais ignorante? Não obstante, direis, os animais compreendem o pensamento do homem, chegam mesmo a adivinhá-lo. Sim, os animais amestrados compreendem certos pensamentos, mas acaso já os vistes reproduzi-los? Não. Conclui, pois, que os animais não podem servir-nos de intérpretes”. [7]

Uma leitura atenta do capítulo onde está inserida a dissertação de Erasto é obrigatória para todo aquele que deseja compreender por que não são médiuns os animais. Kardec e os Espíritos Instrutores nunca foram tão claros e objetivos. Já sobre o sofrimento, ela explicou que não devemos entendê-lo como algo ruim, mas como um elemento necessário ao progresso de tudo o que vive neste mundo material. A dor, antes de ser entendida como punitiva, deve ser entendida como educativa. E pelo fato de o princípio inteligente dos animais estarem habitando corpos perecíveis, nada mais natural que eles estejam sujeitos às vicissitudes inerentes a este corpo.
Como médica veterinária especialista, soube abordar muito bem o tema, nos dando uma ideia de toda a trajetória evolutiva do ser espiritual pelas formas materiais aqui neste orbe. Três livros, entre os citados em sua palestra, eu coloco como sugestão de leitura: A Biologia da Crença, Evolução em dois Mundos e Evolução Anímica. Este último, de autoria de Gabriel Delanne, é fantástico. Como já disse, a palestra dela foi muito instrutiva. Muito boa mesmo!
A última palestra do sábado ficou a cargo do Sérgio Felipe de Oliveira com o tema “Perispírito – Animismo – Mediunidade e suas relações de interdependência – Uma abordagem científica à luz da doutrina espírita”. Reconhecido nacional e internacionalmente pelos seus importantíssimos estudos sobre a Glândula Pineal, era, de fato, o conferencista mais aguardado. O tema por si só era instigante, e ele parecia a pessoa certa para abordá-lo. Infelizmente só parecia. Embora todo o cabedal de conhecimentos que ele deva possuir a primeira parte da sua palestra (1h e 10min) foi usada em uma ‘pequena’ introdução e um desabafo que ele achou por bem fazer naquele momento. Falou de muitas coisas, desde os estudos de Jung com uma médium (sua prima) sobre a mediunidade (conforme relatado no primeiro volume das suas obras completas, no capítulo II), até a importância dos dirigentes espíritas estarem mais bem preparados, bem como os centros espíritas, para poderem atender pessoas acometidas de processos obsessivos mais graves, não interditando a educação mediúnica a quem precise realmente exercê-la com a desculpa de que ela precisa primeiramente estudar, para depois praticar; o que em São Paulo, em alguns centros e federações, pode levar até cinco anos! Claro que não vamos abrir as portas da reunião mediúnica a qualquer que o deseje, ou por qualquer motivo. Entretanto, o bom senso deve imperar e as exceções existem para mostrar que nada é tão estático que não precise ser reavaliado. E há casos de pessoas acometidas por processos obsessivos onde ela seria muito melhor assistida em reuniões especias, emergenciais mesmo, onde ela pudesse educar a sua mediunidade, sendo instruída teórica e experimentalmente a uma só vez.  Mas, no que se refere ao raciocínio apresentado pelo Sérgio, além de concordar, entendo-o como uma exceção, não como uma regra. Vale à pena deixar este ponto bem destacado.
Entretanto, como eu disse, a primeira parte passou e o tema principal ficou à deriva, como um navio encalhado à espera da maré alta para poder retornar ao seu destino. O intervalo serviria, dentro deste exemplo, para dar tempo da maré encher e permitir que o tema, como o navio, pudesse alcançar o seu destino.
Em seu retorno do intervalo, ele parecia que iria abordar o tema. Entretanto, só parecia. Começou falando do seu projeto, a Uniespírito (www.uniespirito.com.br), onde deseja realizar estudos sobre mediunidade e a realidade espiritual, apresentou um artigo em inglês (The mind e the brain), citou os livros de Machado de Assis (O alienista e Obras póstumas de Brás Cubas), relembrou o CID – 10 e sua classificação sobre ‘estados de transe e possessão’ e apresentou imagens muitíssimo interessantes sobre a glândula pineal. Entretanto, o assunto, como antes do intervalo, continuava à deriva. Nenhuma conceituação sobre o perispírito nem sobre o animismo nem sobre a mediunidade! Mesmo ele sendo uma pessoa engraçada, engajada, com muitos conhecimentos, duas hipóteses surgiram entre as conversas que tive com alguns participantes sobre o fato do tema principal não ter sido abordado: 1) ou ele não se preparou devidamente, independente de haverem motivos ou não que o tivessem impedido de fazê-lo; ou 2) ele subestimou os participantes achando que o tema era complexo demais para ser abordado. Pode haver outras mais, entretanto estas foram as mais fortes para tentar explicar o motivo de após mais de duas horas de apresentação o assunto não ter dado as caras no Teatro Guararapes.
Assim terminou o segundo dia do SIMESPE, com apresentações muito boas e com um enigma ao final. Espero que em seu retorno, para participar de algum outro evento aqui em Pernambuco, ele possa cumprir o objetivo que lhe possa ser proposto: abordar o tema de fato e sem introduções que durem mais de uma hora. Ele tem potencial para muito mais, e quem assistiu aos seus vídeos disponíveis na internet sabe disso. Até aqui, também, cabe parabenizar os organizadores deste evento pela qualidade, pela organização e pelo empenho apresentados.
Para o domingo, terceiro e último dia do VI SIMESPE, teríamos no período da manhã uma entrevista com os palestrantes do sábado e no período da tarde a apresentação de mais duas conferências. Após isso, ainda teríamos ao final a psicografia e leitura das ‘cartas consoladoras’ pelo Carlos Baccelli.
O primeiro e o segundo bloco de perguntas foi bastante variado, entretanto, poucas foram as perguntas mais embasadas, mais profundas. As dúvidas, em sua maioria, eram relativamente pouco complexas e foram muito bem respondidas. Entretanto, uma pergunta me chamou a atenção. Foi a que pedia esclarecimentos ao Décio sobre as crianças índigo. Ele, muito sabiamente preferiu não responder alegando não possuir conhecimentos sobre o assunto que o permitissem dar uma resposta satisfatória e nem desejava ser leviano ao falar do que não conhece. Já o Sérgio Felipe pediu a palavra para dizer que não acreditava nesta teoria por não ver lógica nela. Eu concordo, embora respeite quem acredita, mas prefiro as explicações claras e lúcidas da codificação sobre a nova geração, conforme expus no artigo sobre “Os Espíritos da Nova Era” [8]. (vale à pena clicar no link disponível do lado direito do blog para acessar o Jornal Mensagem editado pela Associação Brasileira de Pedagogia Espírita para conhecer um pouco melhor a origem desta ideia que não se coaduna com os princípios espíritas)
Após o almoço a primeira palestra esteve sob a responsabilidade de Ângela Maria Menezes com o tema “Experiências de quase morte – A ciência da vez mais perto da realidade espiritual – Teorias científicas sobre o mundo espiritual e suas relações com o mundo material”.
A bibliografia que fundamentou a base de sua abordagem foram os livros “O que acontece quando morremos” de autoria de Sam Parnia e “Vida depois da Vida” do Raymond Mood Jr, além do já citado Pin Van Loomel.
Ela relacionou os aspectos positivos e negativos que ocorrem durante uma EQM, como a visão de um Espírito elevado, geralmente um parente que desencarnou antes de nós ou a visão de um Espírito inferior, que pode estar cobrando algo ou apenas atormentando um “quase liberto”. A luz no fim do túnel, a visão de parentes já falecidos e a sensação de paz são elementos quase sempre presentes em experiências deste tipo.
Importante ressaltar a experiência pessoal da conferencista que ao dar à luz seu primeiro filho entrou em coma por mais de 40 dias e pôde vivenciar aquilo que muitos pesquisadores supõem existir. Seu testemunho é dos mais valiosos. Sua palestra foi muito boa ao final.
Geraldo Lemos foi o responsável por apresentar o último tema: “Espiritismo, alavanca libertadora de consciências – A vivência dos postulados espíritas construindo a saúde mental”. Não foi das mais instrutivas, em minha opinião. Ele gastou boa parte do seu tempo em apresentar o nosso sistema solar, a via láctea, a constelação de Andrômeda, e várias outras constelações em um visível esforço para demonstrar que não temos motivos para sermos vaidosos por habitar não só um dos menores planetas do nosso sistema solar, mas, da nossa constelação, ante a magnitude do universo.
Após isso, ele usou e abusou das citações retiradas das obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier, o famoso médium mineiro. Como em outros eventos e palestras, parece que tudo gira em torno apenas do que o Chico Xavier produziu através da sua mediunidade. Que fique claro: não sou contra o estudo e análise da vida e obra deste médium mineiro exemplar como indivíduo e com possibilidades mediúnicas amplas. Só não posso me furtar a dizer que existe vida antes e depois do Chico. Pena que tem palestrantes que parecem que só vivem e respiram Chico, Emannuel e André Luiz. Geraldo é um deles. Não fosse seu depoimento recente no jornal Folha Espírita ao revelar informações que, segundo ele, lhe foram fornecidas em segredo por Chico Xavier e acharia que foi um caso isolado, sem muita importância.
Neste ínterim ele aborda a obra do André Luiz e expõe sua opinião sobre a existência dos diversos corpos espirituais relatados em seus livros. Existiriam o corpo causal, mental (inteligência), astral (sentimentos) e os chakras que interpenetrariam todos os corpos. Mais uma vez, não sou de dizer que isso é impossível de existir, apenas digo que não se conforma com a concepção do perispírito oferecida pelo Espiritismo quando afirma que os sentimentos e a inteligência são reflexos do Espírito e que o perispírito é um órgão de manifestação do Espírito, não comportando esta definição a ideia de vários corpos perispirituais como a encontramos hoje em obras espíritas de influência espiritualista. A concepção dos ‘chakras’ (os centros de força na obra de André Luiz) oriunda da tradição espiritualista carece de muitas pesquisas para serem aceitos como princípios doutrinários, assim como a definição da ‘aura’ inserida no Espiritismo não reflete nem de perto aquilo que Kardec denominou de ‘atmosfera perispiritual’.
Somente nos últimos 20 minutos sua palestra pareceu realmente abordar o assunto proposto, embora fosse perceptível a presença de Emannuel e a ausência de Kardec, Léon Denis, Gabriel Delanne entre outros que poderiam contribuir com reflexões oportuníssimas sobre o tema abordado. Outro problema é a insistência em querer definir o Espiritismo como Religião e em afirmar que ele o é por ‘religar’ o homem a Deus, dado o hábito de supor que a palavra religião corresponde ao latim religio e que este deriva do verbo religare. Esta palavra significa “tornar a atar, ligar bem, prender, amarrar” e coisas do mesmo tipo. Entretanto, o famoso pensador romano Marcus Tulius Cícero, anterior ao Cristo, admitia religio como oriunda da palavra relegere, ou seja: recolher, reler, voltar. A ideia básica era a de que o homem religioso cuida respeitosamente do culto a Deus. Este raciocínio, exposto por Carlos Toledo Rizzini, vem complementar o que acima dissemos baseado em suas reflexões:

“Aurelius augustinus (Santo Agostinho) decidiu que religião vinha de religare, conforme se explicou acima. O pensamento fundamental presente nesta etimologia é que a religião consta de vínculos que unem o homem ao seu Criador. Todavia, o que é subjacente a tal conceito é o mito do pecado original [...]. Uma vez que o casal primevo transmitiu o seu ‘pecado’ a toda posteridade, o ser humano nasce inquinado, já enodoado pelo erro moral (embora cometido por outros há milênios...). É bem de ver que os rituais e dogmas religiosos têm por meta livrá-lo do estado pecaminoso e religá-lo a Deus. [...] O que sucede quanto ao Espiritismo é que tal concepção lhe é inadequada. Visto não julgar o homem um ser decaído desde a origem. Ao contrário, declara-o um ente em evolução, cujas imperfeições são naturais e proporcionais ao nível de progresso espiritual alcançado. [...] Em consonância com o exposto, Kardec e seus seguidores imediatos negaram fosse ela (a doutrina espírita) mais uma religião, apontando-a, antes, como Filosofia e Ciência (de consequências morais, acrescentamos nós)” [grifos e acréscimos entre parênteses nossos]. [9]

Resumindo, minha opinião sobre sua apresentação é que ela não atingiu o objetivo, ficando na média. Talvez, em outras palestras, que eu não tenha assistido tenha sido diferente e ele tenha alcançado pleno êxito. Entretanto, por esta palestra, a opinião corrente é que ele ficou devendo. E que fique claro: isso não foi opinião isolada de quem escreve estas linhas.
O fim do dia ainda reservava muitas emoções. Chegava o momento das já habituais “cartas consoladoras”, psicografadas por Carlos Baccelli. Particularmente estava apreensivo e procurava analisar o que iria acontecer com a necessária frieza para tentar colher detalhes. Estava desconfiado e não nego isso. Entrevistar as famílias que anseiam receber uma carta de um parente desencarnado pareceria um fator que influenciaria negativamente o fenômeno, por permitir que se pudesse supor uma influência inconsciente provinda das informações adquiridas durante a entrevista. Entretanto, para quem compreende as relações fluídicas entre encarnados e entre estes e os desencarnados, entende que, da mesma forma que preparar com antecedência as perguntas que se desejam fazer durante uma evocação permitem que os Espíritos possam criar uma relação fluídica melhor com evocador e médium, facilitando a comunicação e transmissão das informações; no caso do Baccelli, o efeito parece ser o mesmo.
Além do mais, como permanecer frio ante a emoção reinante não só no semblante choroso dos parentes agraciados com informações de seus entes queridos, mas, no próprio ambiente, como que a refletir a emoção dos próprios Espíritos comunicantes? A atenção da platéia é um belo exemplo de como é impossível permanecer indiferente.  A cada mensagem lida, risadas, lágrimas e muita emoção. É um esposo que consola a esposa que fica para que siga com a sua vida. É uma mãe que elogia o filho, sua garra ante a saudade e as dificuldades da vida. É um filho que consola a mãe. É uma esposa que estimula o trabalho caritativo, a necessidade do esposo ainda encarnado superar o luto e seguir em frente. É um ex-trabalhador da instituição Seara de Deus que envia um recado particular e outro geral. Enfim, uma nota sempre presente é o bom humor, a descontração e a vontade de estimular os seus a seguirem em frente, a mudarem as emoções ainda presentes. É deixar de chorar ao olhar a foto da pessoa a quem se ama, de beijá-la e lavá-la com lágrimas. Enfim, este foi um momento muito belo, tocante e único!
Um evento belíssimo. É assim que posso definir este VI SIMESPE. E não pensem que é hipocrisia, pois não é. As observações e críticas feitas aos palestrantes, longe estão de afetar o prestígio do evento, visto que ao convidar alguém para apresentar determinado assunto, você sempre espera que ele possa cumprir com a sua responsabilidade. Das resenhas que já fiz, não existiu um único evento que não apresentasse estes mesmos probleminhas. E se formos mais longe, mesmo em congressos universitários, ou não, nacionais ou internacionais, isto acontece. Portanto, que muitos possam ver estas críticas como um estímulo para que possamos buscar aquilo que é o ideal. Devo elogiar a organização do evento, a organização do palco, o telão disponível para melhor visualização do público bem como a TV colocada em frente à mesa dos palestrantes como forma de minimizar torcicolos. Senti falta, apenas, de mais stands com livrarias espíritas, até mesmo com a presença da Federação Espírita Pernambucana. Esperava que ela estivesse por lá divulgando a Mostra Espírita 2011.
Enfim, parabéns ao Mário Jorge e a todos aqueles que fizeram e participaram deste evento. Parabéns pela escolha do tema, de muito bom gosto e de alto nível. Parabéns por manter uma estrutura que permite aos palestrantes um desenvolvimento satisfatório do tema e uma abordagem muito mais rica em informações. Parabéns pelo desejo, expresso no cuidado e nos detalhes percebidos por quem participou do mesmo, de fazer deste evento um diferencial espírita no estado. Mas, antes de desejar que 2012 venha com muito mais emoções e informações, fica aqui a dica, se ela servir para algo: porque não sondar palestrantes como Cosme Massi, Sergio Aleixo, Lizt Rangel, Heloísa Pires, Astrid Sayegh, Jáder Sampaio entre outros que poderiam nos brindar com apresentações muitíssimo ricas? A maioria dificilmente se vê por estas bandas. Fica a dica Mário Jorge, já que te prometi uma resenha, deixo também uma sugestão, que é prestar atenção nestes nomes. E se poderia sugerir um tema para análise, que tal pensar neste trecho constante da conclusão de O Livro dos Espíritos, item VI:

“Seria fazer uma ideia bem falsa do Espiritismo acreditar que a sua força decorre da prática das manifestações materiais e que, portanto, entravando-se essas manifestações, pode-se minar-lhes as bases. Sua força está na sua filosofia, no apelo que faz à razão e ao bom senso. Na antiguidade ele era objeto de estudos misteriosos, cuidadosamente ocultos ao vulgo. Hoje não tem segredos para ninguém: fala uma linguagem clara, sem ambigüidades; nada há nele de místico, nada de alegorias suscetíveis de falsas interpretações”.

É claro que é só uma sugestão, bem ousada eu o sei, mas, nosso desejo é que não só esta resenha sirva, mas que a sugestão também. Para você que leu esta resenha e não foi ao evento, é uma pena, pois, perdeu uma ótima oportunidade. Ainda bem que ano que vem tem mais. E para você que leu esta resenha e ao chegar aqui não concorda com o que expomos e acha que exageramos em muitos pontos, tudo bem. Você pode estar certo, ou não. Aqui, apenas expus minha opinião daquilo que vi e senti. E como não consigo ficar imparcial, vou colocando um comentário meu aqui e ali. Se esta resenha for útil a pelo menos uma pessoa já me sentirei com o dever cumprido. Assim, que Deus nos abençoe hoje e sempre e que venha o VII SIMESPE em 2012! E sem fim do mundo, por favor!!!


[1]http://analisesespiritas.blogspot.com/2011/05/obra-de-andre-luiz-e-fisica-quantica.html
[2] Kardec, Allan. A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. 21ª edição, São Paulo, LAKE, 2003. Cap. I, item 55, p. 37.
[3] ________. Idem. Cap. I, item 13, p. 15.
[4] ________. O Livro dos Médiuns. Trad. da 2ª Ed. francesa por J. Herculano Pires. SP – LAKE, 2004. Cap. XXVI, item 287, p. 272.
[5] ________. O Fenômeno Espírita. Parte Terceira, Conselho aos médiuns e aos experimentadores, p. 201.
[6] ________. O Livro dos Médiuns. Cap. IV, p. 12, observação, p. 63.
[7] ________. Idem. Cap. XXII, item 236, p. 215.
[8] http://analisesespiritas.blogspot.com/2010/10/os-espiritos-da-nova-era.html
[9] Rizzini, Carlos Toledo. Fronteiras do Espiritismo e da Ciência. Parte II, p. 70.

Um comentário:

  1. Parabéns Anderson pela sua resenha que só tem para engrandecer o SIMESPE.

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