sábado, 13 de março de 2010

Analisando a Escala Espírita


Kardec afirmou, certa vez, que de todos os princípios fundamentais da Doutrina Espírita, um dos mais importantes é, sem dúvida, aquele que estabelece as diferentes ordens dos Espíritos [1]. Assim, a Escala Espírita será o objetivo de nossa análise.

Em O que é o Espiritismo encontramos a seguinte observação: "Os Espíritos não sendo senão as almas dos homens, estes não adquiriram a perfeição, deixando o seu envoltório terrestre. O progresso do Espírito não se realiza senão com o tempo, e não é senão sucessivamente que ele se despoja de suas imperfeições e adquire os conhecimentos que lhe faltam".

E em outro momento ele afirmaria que "essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos mais importantes pontos a considerar, porque ela explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebem; é preciso, sobretudo, se interessar em distingui-las" [2].

Esta distinção é, sem dúvida, um dos maiores escolhos da ciência espírita. É por isso que "do ponto de vista da ciência prática, a Escala Espírita nos oferece a maneira de julgar os Espíritos que se apresentam nas manifestações e ainda o de apreciar o grau de confiança que sua linguagem deve inspirar" [1].

Segundo o Minidicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, da Lexicon, o termo classificação significa: "Ordenação ou distribuição de seres ou coisas, segundo algum critério". E é em O Livro dos Espíritos, item 100, que o codificador explica qual é o critério utilizado: "a classificação dos Espíritos funda-se no seu grau de desenvolvimento, nas qualidades por eles adquiridas e nas imperfeições de que ainda não se livraram".

Como se pode observar, esta é uma classificação eminentemente psicológica e que não se apóia em caracteres materiais, muito menos na correção do estilo ou no aspecto formal da linguagem, pois ela serve para qualquer Espírito, independente de onde se manifeste. Por isso, somente sondando-lhes o íntimo, pesando, analisando e submetendo ao mais rigoroso exame tudo o que venha deles é que discerniremos a verdade do erro.

"A experiência ensina que não devemos tomar sempre ao pé da letra as expressões usadas pelos espíritos. Interpretando-as segundo as nossas idéias, expomo-nos a grandes decepções. È por isso que precisamos aprofundar o sentido de suas palavras quando apresentam a menor ambigüidade" ([4], cap. VIII, item 128).

É interessante ressaltar que esta escala não é absoluta e que nenhuma categoria apresenta caráter bem definido, a não ser no conjunto e que a transição, de um ponto a outro é insensível, pois nos limites as diferenças se apagam como no exemplo do arco-íris ou nos diferentes períodos da vida humana.

Kardec ainda esclarece no texto a seguir a sua participação na estruturação da escala: "não inventamos os Espíritos nem os seus caracteres. Vimos e observamos; julgamos pelas suas palavras e os seus atos, e depois os classificamos pelas semelhanças, baseando-nos nos dados que eles mesmos nos forneceram". Ele ainda explica que "se o quadro [...] não foi textualmente traçado pelos Espíritos, e se dele tivemos a iniciativa, todos os elementos dos quais se compõem foram tomados dos seus ensinamentos; não nos restou mais do que formular-lhe a disposição material" [(6), fevereiro de 1858].

Ainda cabe ressaltar que esta classificação, não sendo obra exclusiva de Kardec, foi aprovada pelos Espíritos, pois, como encontramos em Prolegômenos [5], "nada contém que não seja a expressão de seu pensamento e não tenha sofrido o seu controle". Ou seja, a Escala Espírita passou pela supervisão dos Espíritos Superiores e estes deixaram a Kardec "a distribuição metódica" dos assuntos, a forma, enquanto que o que lhes cabia priorizar era o fundo, a essência. Esta era uma parte da missão de Kardec: materializar, por assim dizer, em livros, a essência do pensamento dos Espíritos verdadeiramente superiores [ Ver item 287 de O Livro dos Médiuns].

Podemos observar esta verdade mais facilmente quando analisamos o próprio livro-base do Espiritismo. Na questão 96 somos informados de que existe uma hierarquia entre os espíritos segundo o grau de perfeição a que tenham chegado. Na questão 97 os Espíritos respondem que o número de ordens é ilimitado, entretanto, "se considerarmos os caracteres gerais, poderemos reduzi-las a três ordens principais". [Ver também (5), Introdução, item VI]

Observe-se, antes de tudo, que os Espíritos não pertencem exclusivamente a esta ou àquela classe, e que eles podem reunir as características de mais de uma categoria, o que se pode apreciar por um estudo aprofundado.

Na base da escala podemos observar que nem todos são essencialmente maus, uns não fazem nem bem nem mal; outros, ao contrário, se comprazem no mal e ficam satisfeitos quando encontram ocasião de praticá-lo. Há ainda os espíritos levianos, mais travessos do que malévolos, que se comprazem mais na malícia do que na maldade, encontrando prazer em mistificar e causar pequenas contrariedades, das quais se riem. Neste grupo ainda se encontram os Espíritos pseudo-sábios, que não perdem a oportunidade de falar de tudo, mesmo do que não saibam, de construir sistemas, criar utopias e que se sentem felizes quando encontram intérpretes complacentes e crédulos a ponto de aceitarem suas elucubrações de olhos fechados.

Os da segunda ordem estão caracterizados pelo incessante desejo de praticar o bem e pela predominância do Espírito sobre a matéria. São os bons espíritos. Cabe ressaltar que não sendo todos os espíritos sérios igualmente esclarecidos, há muitas coisas que ignoram e sobre as quais podem se enganar de boa fé. E que os Espíritos verdadeiramente superiores nos recomendam sempre submeter todas as comunicações ao controle da razão e da lógica mais severa. [ver nosso artigo Da Natureza das Comunicações]

Os da primeira ordem são todos os que atingiram o supremo grau de perfeição. Não estando mais sujeitos a reencarnação em corpos perecíveis, vivem a vida eterna, sendo os mensageiros de Deus, cujas ordens executam, para manutenção da harmonia universal.

Esta é uma divisão racional e com caracteres bem positivados, restando a Kardec destacar, como já foi dito, por um número suficiente de subdivisões, as principais nuanças do conjunto, o que fez sempre com o concurso dos Espíritos, cujas instruções benevolentes jamais lhe faltaram. Assim, a Escala Espírita é composta por três ordens principais e dez categorias.

Vale observar ainda que o que acontece aqui, como em toda classificação científica, é que os sistemas podem ser mais ou menos racionais, mais ou menos completos, mais ou menos cômodos para a inteligência sem que isto altere a sua necessidade.

Será com a ajuda deste quadro, informa Kardec, que poderemos determinar a ordem e o grau de superioridade ou inferioridade dos Espíritos com que podemos entrar em contato, sendo mais fácil, assim, avaliar o grau de estima e confiança que eles devem merecer.

É por isto que o codificador afirma que a Escala Espírita é, "de alguma maneira, a chave da Ciência Espírita, pois só ela pode explicar-nos as anomalias que as comunicações apresentam, esclarecendo-nos sobre as irregularidades intelectuais e morais dos Espíritos" [5].

Procedendo com os Espíritos da mesma forma que com os homens, foi que o codificador empreendeu a sua tarefa, não os considerando reveladores predestinados, mas, sim, elementos de instrução. Pois "incumbe ao observador formar o conjunto, coordenando, colecionando e conferindo, uns com os outros, os documentos que tenha recolhido". Essa sempre foi a regra invariável a que ele se impôs nos estudos espíritas: observar, comparar e julgar.

E esta é a missão que cabe a cada espírita, com o apoio da Escala. Pois, numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é que a iniciativa pertence aos Espíritos e que a sua elaboração é o resultado do trabalho do homem, que estuda e compara, tirando daí, dos ensinos dos Espíritos, as suas conclusões e aplicações.

É por tudo isto que devemos ressaltar a importância da Escala Espírita em nossos estudos e análises, e, acima de tudo, para tudo aquilo que venha dos Espíritos. Bons estudos e até a próxima!
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[1] Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas, FEB.

[2] O que é o Espiritismo, IDE.

[3] Obras Póstumas, LAKE.

[4] O Livro dos médiuns, LAKE.

[5] O Livro dos Espíritos, LAKE.

[6] Revista Espírita, IDE.

* Artigo publicado na edição de abril da Revista Internacional de Espiritismo.

2 comentários:

  1. "essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos mais importantes pontos a considerar, porque ela explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebem; é preciso, sobretudo, se interessar em distingui-las" [2].

    ..."DE TODOS OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS NÃO É DIFERENTE DESTA INFORMAÇÃO?PENSO QUE SIM....

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  2. Olá Zilda. São diferentes sim. A primeira citação refere-se ao escolhos que a parte prática da Ciência Espírita apresenta na distinção das naturezas boas ou más das comunicações dos Espíritos.

    Já o parágrafo de introdução do texto se refere à parte teórica e afirma, consoante afirmação de Kardec, que de todos os princípios fundamentais, a classificação dos Espíritos está entre os primeiros a serem observados.

    Resumindo: a sua primeira citação refere-se à parte prática e a segunda refere-se à parte teórica, entretanto, os dois se fundem, e de tão próximos em seu sentido, parecem ser a mesma coisa.

    Abraços e espero ter ajudado a compreender.

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