domingo, 29 de julho de 2012

Reflexões acerca da publicação de comunicações mediúnicas



Kardec relata em Obras Póstumas que um dos primeiros resultados das suas observações foi perceber que os Espíritos não possuíam nem a soberana sabedoria, nem a soberana ciência, como rezava a cultura popular. Eles não eram nada mais que as almas dos homens que aqui viveram. É por isto que afirma que “esta verdade, reconhecida desde o princípio, preservou-me do perigo de acreditar na infalibilidade deles e livrou-me de formular teorias prematuras sobre os ditados de um ou de alguns” [1].
            Foi esta a postura adotada pelo codificador durante todos os quinze anos em que esteve envolvido com os assuntos espíritas. Uma postura sensata, madura e que merece ser copiada nos dias de hoje. E em quantos centros espíritas podemos observar tal postura sendo repetida hoje? Muito poucos! Em tempos de vacas gordas, como os atuais, onde as obras espíritas (e até as que se fazem passar por espíritas...) ganham espaço na mídia e no mercado editorial, quantos editores vão perder tempo em analisar criteriosamente uma obra, seja um romance, seja uma obra de conteúdo doutrinário de forma tão minuciosa que possa descobrir se o ponto no i está correto? Mais uma vez, poucos, muito poucos. A maioria não liga para estes critérios, pois o tipo do papel utilizado na impressão, a arte que será impressa na capa, o autor “de prestígio” que assinará o prefácio [normalmente um médium, já que um mero encarnado que se dispõe a estudar e comentar o Espiritismo normalmente não é tão respeitado como o ‘mensageiro dos espíritos’] e a possibilidade do livro alcançar vultosas tiragens é o mais importante. Não importa se o conteúdo do livro for absurdamente duvidoso, a polêmica também traz lucros, pensam eles. E nisto, a qualidade também se vai.
            Contudo, quando existe um trabalho criterioso, muitos equívocos podem ser evitados e muitas informações erradas deixam de ser publicadas. E olhe que não são poucas as obras que poderiam ser atribuídas a Espíritos pseudossábios. E isto é até interessante de se ver. Existem obras que todo mundo sabe que conflitam com os princípios mais básicos do Espiritismo, entretanto, elas são publicadas sem uma referência sequer, nem uma nota corrigindo tal ou qual opinião. E é justamente isto o que Kardec comenta quando afirma que

“[...] Não haveria nenhum inconveniente em publicar essas espécies de comunicações, se as fizessem acompanhar de comentários, seja para refutar os erros, seja para lembrar que são a expressão de uma opinião individual, da qual não se assume a responsabilidade; poderiam mesmo ter um lado instrutivo, mostrando a que aberrações de ideias podem entregar-se certos Espíritos. Mas, publicá-las pura e simplesmente é apresentá-las como expressão da verdade e garantir a autenticidade das assinaturas, que o bom senso não pode admitir; eis o inconveniente” [2].
            Mas, quem ousa hoje corrigir os luminares que psicografam teorias muito além da nossa compreensão? Quem ousa criticar (no verdadeiro sentido etimológico da palavra que é ‘avaliar qualitativamente algo ou alguém’) estas obras corre o grande risco de morrer no ostracismo, na ignorância, no esquecimento. Felizmente ainda existem aqueles que não desejam apenas divulgar o Espiritismo e vivê-lo em seu aspecto moral (mesmo que superficialmente), mas, acima de tudo, existem aqueles que querem pensá-lo. Que desejam continuar raciocinando. É a estes que devemos obras como A Pedra e o Joio, Pesquisa sobre a Mediunidade e Diversidade dos Carismas.
            Até porque, é o próprio Codificador que nos incita a denunciar sem hesitação as obras suspeitas, pelo bem da doutrina. E isto pelo simples fato de que se os espíritos possuem, além do livre-arbítrio, opiniões sobre os homens e as coisas deste e do outro mundo, compreende-se que existam textos que devam ser evitados não só por conveniência, mas por prudência pura e simples. Esta questão leva Kardec a afirmar que no interesse da Doutrina convém fazer uma seleção muito severa, eliminando tudo quanto possa produzir uma má impressão.
            Por outro lado, existem algumas obras que mesmo sendo instrutivas, relatam situações e ambientes do mundo espiritual de forma analógica, comparativa e que se não forem devidamente analisadas e comentadas podem ser tomadas como realidade. É isto o que leva José Herculano Pires a afirmar que as “obras mediúnicas, psicografadas, que descrevem com excesso de minúcias a vida no plano espiritual devem ser encaradas com reserva pelos espíritas estudiosos” [3].  Entretanto, além destas precauções, outras devem ser observadas, principalmente aquela que diz respeito à participação dos médiuns na escolha das comunicações ou mesmo na publicação das mesmas.

“Enquanto o médium imperfeito se orgulha dos nomes ilustres, o mais frequentemente apócrifos, que levam as comunicações que ele recebe, e se considera intérprete privilegiado das forças celestes, o bom médium não se crê jamais bastante digno de tal valor, tendo sempre uma salutar desconfiança da qualidade daquilo que recebe não se confiando ao seu próprio julgamento; não sendo senão um instrumento passivo, ele compreende que, se é bom, não pode disso fazer um mérito pessoal, não mais do que pode ser responsável se é mau, e que seria ridículo acreditar na identidade absoluta dos Espíritos que se manifestam por ele; deixa a questão ser julgada por terceiros desinteressados, sem que o seu amor-próprio tenha mais a sofrer com um julgamento desfavorável do que o ator que não é passível da censura infligida à peça da qual é intérprete. Seu caráter distintivo é a simplicidade e a modéstia; é feliz com a faculdade que possui, não para dela se envaidecer, mas porque lhe oferece um meio de ser útil, o que faz voluntariamente quando lhe surge a ocasião, sem jamais melindrar-se se não é colocado em primeiro plano”. [4]
Estas reflexões me remetem, inevitavelmente, à assustadora quantidade de médiuns donos de editoras, que fundam centros e gráficas para publicar seus livros quando eles não são aceitos com bons olhos pelos seus companheiros de ideal.  Mas não só a eles. Quantos aqui guardariam por mais de vinte anos uma psicografia, e os insistentes convites dos Espíritos autores (do tamanho de um livro) por não achar que ela deveria ser publicada naquele momento? Muitos médiuns mal terminam de psicografar e já procuram alguém de nome para prefaciar a obra que nem finalizada está, como comentou certa vez o médium Divaldo Franco. Infelizmente são poucos os que assumem uma postura idêntica a da Yvonne Pereira no famoso caso do Espírito Beletrista (Ver a obra Devassando o Invisível para maiores informações).
E é por isto que hoje vemos tanta gente que apenas admira o Espiritismo, tantas cabeças ‘pensantes’ que se acostumaram a viver apenas como as lagartixas, balançando a cabeça pra tudo o que os Espíritos dizem atestando a sua ignorância em tudo o que diz respeito ao Espiritismo. E ai de quem ousar dizer que ele está fascinado! Conheço o caso de uma senhora que jura ser a encarnação de vários espíritos famosos pela psicografia de um médium também famoso, já desencarnado, mas que demonstra claros sinais de uma assustadora fascinação. Imagina se ela psicografasse livros?
Não é à toa que Kardec se preocupava com relação à publicação de comunicações mediúnicas, de uma forma geral. Não por acaso, também, que insistimos em repisar as advertências feitas por Herculano Pires sobre a importância de uma séria e sólida formação doutrinária para as futuras gerações espíritas. E para finalizar estas reflexões, como disse certa vez o Codificador:

“Em matéria de publicidade, portanto, toda circunspeção é pouca e não se calcularia com bastante cuidado o efeito que talvez produzisse sobre o leitor. Em resumo, é um grave erro crer-se obrigado a publicar tudo quanto ditam os Espíritos, porque, se os há bons e esclarecidos, também os há maus e ignorantes. Importa fazer uma escolha muito rigorosa de suas comunicações e suprimir tudo quanto for inútil, insignificante, falso ou susceptível de produzir má impressão. É preciso semear, sem dúvida, mas semear a boa semente e em tempo oportuno”. [5]
Referências:
[1] KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 14ª Ed. SP, LAKE, 2007, p. 217.
[2] _______. Viagem Espírita em 1862. 1ª Ed. RJ, FEB, 2005, p. 123.
[3] PIRES, J. Herculano. Mediunidade.
[4] _______. O que é o Espiritismo. IDE, item 87, pag. 114
[5] KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862. 1ª Ed. RJ, FEB, 2005, p.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

De Sonda nas Mãos e Consultando os Ventos


    Kardec sempre se preocupou com a necessidade de expressar os conceitos espíritas com termos que não causassem confusão nem fossem considerados ambíguos. Da mesma forma, ele sabia por experiência própria que o Espiritismo teria “principalmente, no começo, de lutar contra ideias pessoais, sempre intransigentes, tenazes, difíceis de se harmonizar com as ideias de outrem e contra a ambição dos que querem ligar, a todo o custo, o seu nome a uma inovação qualquer, que inventam novidades só para poderem dizer que não pensam e não fazem como os outros, ou porque o seu amor próprio se revolta por terem de ocupar um lugar secundário”[1].
         Desta citação, ouso cortar somente a expressão “no começo”, pois se esta luta existia ao tempo de Kardec, hoje ela parece estar ainda mais gritante. De um lado observamos médiuns estrelas, considerados verdadeiros oráculos de sabedoria e editoras conduzidas por médiuns psicógrafos, algumas criadas com o honesto e verdadeiro sentimento de contribuir com a mensagem espírita, já outras nascidas apenas do orgulho ferido do seu fundador por não terem as “suas obras” [DOS ESPÍRITOS, ressalve-se] o reconhecimento que deveriam; Por outro lado, vemos trabalhadores dedicados ao estudo da doutrina serem ignorados, escanteados mesmo, seja por não produzirem novidades a todo o momento, seja pelo fato de não concordarem com estas supostas novidades surgidas, normalmente, de uma interpretação apressada e equivocada dos ensinos espíritas.
         Normalmente, são por estes motivos que as tentativas de adulteração doutrinária acontecem. Adulterar significa deturpar, deformar, falsificar algo. Dentro do movimento espírita está associado às tentativas de modificar os conceitos espíritas sem uma fundamentação séria, consistente e coerente seja científica seja filosófica. Normalmente as tentativas são equivocadas e fruto de puro desconhecimento dos mais básicos princípios do Espiritismo. De outras, são fruto de mentes desencarnadas ardilosas, especialistas em misturar o joio ao trigo, que articulam seus planos no mundo espiritual e que as publicam no meio espírita através de médiuns invigilantes, ingênuos e que só caem em suas armadilhas porque são imprudentes.
         De acordo com José Herculano Pires, “qualquer obra que pretenda superar Kardec ou subestimar a Doutrina Espírita precisa ser submetida à prova de toque. E essa prova só pode ser feita de duas maneiras: de um lado conferindo-se a pretensa superação com a obra de Kardec para verificar-se qual das duas está mais coerente e apresenta maior coesão, maior unidade e firmeza nos seus princípios; de outro lado, conferindo-se, como recomenda o próprio Kardec, os princípios da pretensa superação com as exigências do pensamento atual em todos os campos da nossa atividade mental” [2].
         Kardec sempre esteve atento a este fato. Tanto que afirmou ser indispensável para a unidade futura do movimento espírita que todas as partes da Doutrina fossem determinadas com clareza e precisão, sem que nenhuma ficasse mal definida. “Neste sentido temos feito todo o esforço para que os nossos escritos não se prestem a interpretações contraditórias e esforçar-nos-emos por manter esta regra” [1]. Sobre este assunto, o codificador elencou três pontos que considerou de importância capital para a unidade futura do Espiritismo:
1)     O primeiro ponto é utilizar-se sempre de uma linguagem objetiva, clara e precisa como “dois mais dois é igual a quatro”. Desta forma, ninguém ousará dizer que é cinco. “Poder-se-ão formar, fora da Doutrina, seitas que não adotem alguns ou todos os princípios; não no seio dela, por interpretação do texto, como se tem formado, tão numerosa, sobre o sentido das palavras do evangelho” [1]. Sobre este ponto indico para leitura o texto “A importância da nomenclatura para a unidade futura do Espiritismo” como forma de complemento e melhor compreensão das ideias aqui inseridas.
2)     O segundo tem a ver com a importância de não sairmos do círculo das ideias práticas. Ou seja, “se é certo que a utopia de hoje se torna muitas vezes a verdade de amanhã, deixemos que o futuro realize a utopia de hoje, mas não enredemos a doutrina com princípios que possam ser considerados quimeras e a tornem rejeitada pelos homens positivos” [1]. Este ponto é perfeitamente aplicável às inúmeras novidades que se publicam hoje na vasta literatura espírita: seja o perispírito com órgãos de tipo físico, sejam os vários corpos que teria o perispírito, seja uma técnica que se propõe a resolver todos os problemas obsessivos considerados ‘complexos’ ou a existência de crianças com nomes de pedras preciosas, todos estes assuntos deveriam ser estudados com muito mais prudência e cautela pelos espíritas, principalmente antes de serem divulgados. Utopias são consideradas verdade sem um mínimo de pesquisa, estudo e reflexão. Normalmente, basta que um livro seja publicado ou um médium a divulgue, principalmente se ele for famoso. Insere-se aí a estapafúrdia ideia de se poder existir gravidez e reencarnação no mundo espiritual. “Kardec sustentou sempre a necessidade de pesquisas para a comprovação de certos dados transmitidos por via mediúnica. Ele não aceitou as informações dadas por Mozart e Bernard Palissy através do médium Camille Flammarion e nem mesmo considerou verídicos os desenhos famosos de Victorien Sardou sobre a possível vida em Júpiter. Acatou-as como manifestações curiosas da mediunidade e sugestões do que poderia haver em mundos superiores à condição da Terra” [3]. Como seria bom se muitos dos expositores espíritas, editores e escritores, não esquecendo os médiuns, copiassem esta postura de Kardec no seu dia a dia. Teríamos um movimento espírita muito mais maduro e coeso.
3)     O terceiro ponto tem a ver com a característica essencialmente progressiva da doutrina. Kardec sempre cuidou de não envolver o Espiritismo em sonhos irrealizáveis e nem por isso ela ficou estática, imóvel. Entretanto, vale a pena deixar claro que mesmo “seguindo [...] o movimento progressivo, cumpre-lhe guardar a maior prudência e livrar-se dos devaneios, das utopias e de sistemas. É preciso andar a tempo, nem muito depressa, nem muito devagar e com conhecimento de causa” [1]. Ou seja, a doutrina vai evoluir, já que isso faz parte da sua natureza, mas, deve ser com os pés no chão e não de forma atabalhoada, sem estudo, sem critérios, sem pesquisa. É por isso que “antes de pensar em ‘novas revelações’, o de que precisamos com urgência é de estudo sistemático e mais aprofundado da obra de Kardec, incluindo não só os tomos da Codificação mas também a Revista Espírita, por ele mesmo indicada como indispensável ao bom conhecimento da doutrina” [4].

         A compreensão exata e profunda destes três pontos nos permite não só compreender melhor o Espiritismo e a sua força, mas, e acima de tudo, nos auxilia no combate às tentativas de deturpação doutrinária que vem surgindo no movimento espírita através de obras suspeitas. É por isto que Kardec afirma que “a Doutrina tendo caminhado por esta via desde a sua origem, seguiu avante constantemente, mas sem precipitação, examinando sempre se é sólido o terreno em que põe o pé, e medindo os passos com respeito à opinião. Tem andado como o navegante: de sonda nas mãos e consultando os ventos” [1]. E é assim que deve andar o espírita antes de resolver publicar qualquer novidade com o rótulo espírita, sempre investigando, pesquisando e consultando os Espíritos através das esquecidas evocações.
         Para finalizar, concordo com o J. Herculano Pires quando afirma que “estudar Kardec, pondo de lado todas as tentativas de desfiguração da mesma que foram semeadas no meio doutrinário por seus pretensos superadores, já é uma contribuição, por modesta que seja, ao reconhecimento da abnegação do mestre. E mais do que isso, o estudo sério, consciencioso, respeitoso dessa obra monumental, é dever de todos os que a seguem como filosofia de vida, mesmo que tropeçando nas pedras do caminho” [3].

Referências:
1.     KARDEC, Allan. Obras Póstumas. SP – LAKE, 2007. Segunda Parte, p. 282 a 284.
2.     PIRES, J. Herculano. A Pedra e o Joio. 3ª Ed, SP – Paideia, 2005, p. 12.
3.     ______. O Mistério do Ser ante a Dor e a Morte. 3ª Ed, SP – Paideia, 1996, p. 41, 42 e 81.
4.     RIZZINI, Jorge. J. Herculano Pires – O Apóstolo de Kardec. 1ª Ed, SP – Paidéia, 2001, p. 246.

sábado, 16 de junho de 2012

Refletindo sobre a importância da leitura dos clássicos


                Ultimamente tenho andado um pouco afastado da atividade de palestrante, de escritor e de blogueiro devido aos meus estudos universitários. Pois, para mim, não é porque estou em uma faculdade particular que ficarei limitado pelas facilidades proporcionadas pelo fato de estudar em uma instituição privada.  Além de ser isto algo que não admito em um aluno, em qualquer nível em que ele esteja não é algo que consigo aceitar em mim mesmo. Não consigo ficar sem pesquisar outras fontes. Isto é algo que aprendi nos estudos espíritas e que muito me facilita o dia a dia de estudante universitário que não deseja ser só mais um na estatística deste nosso Brasil. E por isto, o tempo que já é escasso, fica ainda menor. Daí minha dificuldade em escrever.
            Bom, esta digressão é apenas uma forma de querer informar às pessoas que leem este blog o motivo de estar tão ausente. Pois minha última postagem, com um texto meu data de outubro do ano passado. E não foi por falta de vontade, mas, infelizmente, tudo tem o seu tempo e momento. E por falar em momento, é justamente por causa de um texto que recebi por e-mail que acabei escrevendo estas linhas. Ele me foi enviado esta semana e a assinatura diz ser do Orson Peter Carrara, escritor, palestrante e editor de livros espíritas. Ele me fez parar pra pensar. O texto tem o título sugestivo: Clássicos de Emmanuel.
            O objetivo do texto é fazer uma propaganda de cinco obras psicografadas pelo Chico Xavier e assinadas pelo Espírito Emmanuel. As obras são: Há dois mil anos, Cinquenta anos depois, Ave, Cristo!, Renúncia e Paulo e Estêvão. Bom, com exceção de Ave, Cristo!, todos os outros livros eu li e também recomendo a leitura para quem ainda não se permitiu a aventura de passear por suas páginas. Entretanto, estranhei, de fato, a atitude do amigo Orson de preocupar-se em apenas destacar a importância da leitura destes livros, e deixar de estimular as obras de diversos outros trabalhadores da seara, tanto de encarnados quanto de desencarnados. Pois se ele se assustou ao perceber que os neófitos em Espiritismo não haviam lido ainda estes romances, imagina se ele perguntasse se alguém, entre estes mesmos neófitos, já tinha lido ou ouvido falar de obras como O Céu e o Inferno, A Gênese e as Revistas Espíritas, para citar os livros da codificação? Imagina se ele fosse perguntar se alguém já leu ao menos UMA obra do importantíssimo escriba chamado Hermínio C. Miranda? E do não menos importante J. Herculano Pires? Não ouso citar nem o Gabriel Delanne. Uma importantíssima obra dele foi publicada pela primeira vez em português e, mesmo já tendo a adquirido, ainda não pude estudá-la, somente folhear suas páginas: Pesquisas sobre Mediunidade. Uma obra contendo material riquíssimo para as reflexões, principalmente, dos estudantes e profissionais das áreas de Psicologia e Psiquiatria, mas que não é divulgada.
            Outra importante obra nesta área e que também não é sequer mencionada em lugar algum, muito menos em eventos intitulados de científicos, em termos de Espiritismo são: Condomínio Espiritual e Os Estigmas e os Enigmas, de Hermínio Miranda. Aqui um detalhe importante: me refiro aqui aos eventos e artigos com os quais tive contato. Podem até ter trabalhado estes conceitos, entretanto falo dos que conheço ou li sobre. São obras de um conteúdo riquíssimo e que também deveriam ser constantemente lembradas. Até Leon Denis, o grande sucessor de Kardec em solo francês [claro que sem compará-lo à grandeza intelectual do Delanne, comparação assaz injusta devido à diferença de estilos e de objetivos nos estudos de ambos], não é constantemente lembrado nem em artigos nem em palestras. Diante disto, ficarei apenas lembrando e estimulando a leitura de romances por parte dos neófitos? Não. Da mesma forma que na escola, desde a alfabetização, eu preciso estimular na criança o interesse por compreender a interrelação entre as palavras, as frases, os períodos, os parágrafos e a coerência e coesão do texto como um todo, apreendendo o seu conteúdo e aprendendo a analisá-lo criticamente, como esqueço de fazer o mesmo em Espiritismo? Não digo que esta seja a atitude do colega escritor e palestrante, pois seria de uma leviandade sem tamanho, pelo simples fato de conhecê-lo muito pouco para querer supor algo em suas atitudes ou palavras.
            Mas, o que de fato desejo ressaltar, é que devemos estimular a leitura de TODA a literatura espírita, e não apenas de romances, mesmo que sejam os psicografados por Chico e de autoria de Emmanuel ou André Luiz. Tesouro muito mais valioso eu considero a Codificação, e nós nos esquecemos [intencionalmente?] de estudar e divulgar suas páginas para estudo. Imagina estes livros? Copiando descaradamente um trecho do texto do Orson, e dedicando às obras por mim já citadas [de Kardec, Hermínio, Delanne, Denis e Herculano], concordo quando ele diz que 

“São livros para serem lidos e relidos continuamente, tal a preciosidade de suas páginas. Interessante porque, à medida que amadurecemos na idade, na experiência de vida e mesmo no conhecimento espírita, mais esses livros crescem em importância ao nosso sentimento e ao nosso raciocínio. Portanto, se você não leu, não perca essa oportunidade de muito aprender”.
Realmente, são ESTAS as obras que devem TAMBÉM, e muito mais, serem lidas e relidas, estudas e esmiuçadas continuamente, por sua capacidade nos fazerem crescer não só intelectualmente, mas, também emocionalmente.
            E principalmente para nós, que somos oradores, escritores, comentadores de tudo o que receba o título de espírita é que fica o compromisso de não esquecer que uma formação doutrinária eficaz e coerente começa e continua sempre da Codificação pra frente, tendo os neófitos de aprenderem desde o momento em que adentram a casa espírita a compreender que é pela base que se começa o estudo da doutrina e não por obras que visam elaborar pensamentos tendo esta base por fundamento para reflexão. Não devemos olhar estes romances com os olhos já acostumados com outras perspectivas, mas, aprender e ser verdadeiramente estimulados a ler estes livros da mesma forma que Kardec se predispunha a ler os romances psicógrafos de sua época. E esta maneira de se olhar só pode ser aprendida e ensinada tendo-se a Codificação [com as Revistas Espíritas incluídas] como “a bússola” e não mero detalhe não tão atrativo.
            Que fique claro que não desejamos diminuir o valor que estes livros possam ter, entretanto, não posso querer atribuir a eles um valor que eu, enquanto indivíduo participante do movimento espírita, não posso racionalmente atribuir-lhes porque não possuo recursos nem intelectuais nem doutrinários suficientemente maduros para avaliar e poder examinar criticamente, sem me deixar levar pelas opiniões alheias, justas ou injustas, embasadas ou não. E é isto o que mais me fez refletir. E entenda-se este texto, não como uma crítica ao que o Orson escreveu, mas, e acima de tudo, estas palavras são no sentido de complementar a advertência feita por ele, mas, sem perder a característica de análise crítica.
            Enfim, que possamos estimular a leitura destes romances, mas, que possamos estimular, acima de tudo, uma eficiente e efetiva movimentação em prol de uma correta formação doutrinária do adepto do Espiritismo. Estimulando-o a amadurecer como indivíduo e a ter condições de estudar tanto os belos romances psicografadas, de um modo geral, mesmo sabendo que não são muitos, quanto os de conteúdo mais denso e que exigem um poder de concentração maior por parte do leitor. Até porque, o contrário seria formar uma classe que por si só já é abominável em qualquer lugar, imagine-se no Espiritismo: a de espíritas não praticantes. Aqueles que se contentam somente em ler os romances e a ir ao centro pra tomar passe, beber a água fluidificada e a ouvir a palestra [ou seria o sermão] do dia...

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Café Filosófico: A Imortalidade da Alma à Partir do Fédon de Platão


Estivemos presentes na manhã de ontem (02/05 das 08:00 às 09:30) apresentando um café filosófico na Faculdade dos Guararapes sobre a Imortalidade da Alma à partir do Fédon de Platão, onde pudemos apresentar as raízes do pensamento platônico, como o Orfismo, religião de mistérios 'criada' por Orfeu, o filósofo Pitágoras, criador do termo filosofia e pai do famoso "Teorema de Pitágoras", Heráclito, para quem tudo era uma eterna mudança e Parmênides, que entendia a imutabilidade como a realidade do ser e a impermanência como uma ilusão dos sentidos. Pudemos conversar um pouco sobre Sócrates, um pouco sobre platão e abordamos a obra Fédon, escrita por Platão para fundamentar filosoficamente a sua crença na imortalidade da alma dando uma solução para a aporia (que significa "um caminho sem saída") criada entre Heráclito e Parmênides, surgindo disso a dialética platônica e a distinção entre o mundo sensível e o mundo inteligível, o mundo das formas e o mundo das essências. Hoje, será realizado o segundo momento do café, no horário das 19:00 às 20:30, com direito a certificado para aqueles que se inscreverem no site da faculdade (COEX). É uma ótima oportunidade para trazer para perto de nós um pouco da riqueza e diversidade do pensamento filosófico do mundo antigo. Riqueza esta que seria muito oportuna apresentar ao público espírita, que perceberia muitas conexões entre os pensamentos dos antigos e o que aprendemos com a Doutrina Espírita.

Quem sabe, em breve, possamos realizar um evento deste voltado para o movimento espírita...? 

Bom, queria apenas noticiar-lhes um evento que considero importantíssimo e que fico feliz por ter sido o idealizador e o palestrante responsável pela apresentação do tema.

Um forte abraço e até a próxima meus caros.

Anderson

domingo, 8 de abril de 2012

Palestra no Seara de Deus

Dia 21 de abril, estarei presente no Grupo Espírita Seara de Deus, que fica no Janga, em Paulista para uma palestra sobre a importância da análise crítica dos ditados mediúnicos. Este é um tema de extrema relevância nos dias de hoje, dada a crescente fragmentação do movimento espírita em torno, não mais da Doutrina dos Espíritos, mas, em torno de personalidades [médiuns ou oradores] e espíritos, sejam eles verdadeiros sábios ou simples embusteiros, verdadeiros pseudossábios, como diria a terminologia espírita. Aguardo os amigos por lá!

domingo, 18 de março de 2012

Para Reflexão:

Revista Espírita de janeiro de 1866:

"Cada um é livre de encarar as coisas à sua maneira, e nós, que reclamamos esta liberdade para nós, não podemos recusá-la aos outros. Mas, porque uma opinião é livre, não se segue que não se a possa discutir, examinar o lado forte e o fraco, pesar suas vantagens e inconvenientes.

Dizemos isto a propósito da negação da utilidade da prece, que algumas pessoas quereriam erigir em sistema, para transformá-lo em bandeira de uma escola dissidente...

...Se o Espiritismo proclama a sua utilidade, não é por espírito de sistema, mas porque a observação permitiu constatar a sua eficácia e o modo de ação. Desde que, pelas leis dos fluidos, compreendemos o poder do pensamento, também compreendemos o da prece, que é, também ela, um pensamento dirigido para um fim determinado.

Além da ação puramente moral, o Espiritismo nos mostra na prece um efeito de certo modo material, resultante da transmissão fluídica. Em certas moléstias sua eficácia é constatada pela experiência, como demonstrada pela teoria. Rejeitar a prece é, pois, privar-se de poderoso auxiliar para alívio dos males corporais.

Depois da prece, se se está fraco, sente-se mais forte; se se está triste, mais consolado. Tirar a prece é privar o homem de seu mais poderoso suporte moral na adversidade. Pela prece ele eleva sua alma, entra em comunhão com Deus, identifica-se com o mundo espiritual, desmaterializa-se, condição essencial de sua felicidade futura; sem a prece, seus pensamentos ficam na Terra, ligam-se mais e mais as coisas materiais. Daí um atraso no seu adiantamento.

Nas reuniões espíritas a prece predispõe ao recolhimento, à seriedade, condição indispensável, como se sabe, para as comunicações sérias. É dizer que devam ser transformadas em assembléias religiosas? De modo algum. O sentimento religioso não é sinônimo de profissionalismo religioso; deve-se mesmo evitar o que poderia dar às reuniões esse último caráter."

sábado, 11 de fevereiro de 2012


Caríssimos, dentro do importantíssimo tema que é o Magnetismo é bom saber que existe um evento que tem como meta desenvolve-lo, anasá-lo e reanalisá-lo além de colocá-lo dentro das perspectivas científicas atuais. Não sei à quantas andam as pesquisas do Jacob, por ter me afastado dos trabalhos 'magnéticos' em virtude da vida acadêmica, mas, pela que já tinha visto, está longe de perder sua força.

Este ano, o evento ocorre em Pompano Beach, Flórida - EUA. Para quem tiver disponibilidade e interesse, vale a pena inscrever-se e viajar até lá para participar do evento. Para os trabalhadores que usufruem de condições, é uma obrigação, ao menos, refletir sobre a possibilidade. Para nós outros, mortais sem condições financeiras, nem de tempo, nem profissionais para participar, cabe esperar que o evento seja transmitido pela internet ou que os vídeos estejam disponíveis no Youtube.

Até lá, que os bons espíritos apoiem este importantíssimo evento.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Máximas de Kardec

Após tanto tempo sem postar, retorno com um trecho escrito por Kardec na obra O Que é o Espiritismo. É um trecho interessante e que deixo como objeto de reflexão para cada um de nós que fazemos o movimento espírita. Principalmente neste tempo onde informações tendenciosas, ou sem fundamentação lógica, quiçá, doutrinária sobre a ‘transição planetária’ e outros assuntos invadem a praia espiritista. Ainda tem aquela boa e velha preguiça de realizar uma análise crítica sobre tudo o que vem dos Espíritos [e dos encarnados também!!!]. Kardec, COMO SEMPRE é um oásis perdido em meio a uma imensidão de livros meia-boca, com qualidade questionável, lógica duvidosa e fundamentação doutrinária beirando a ignorância. 

Como não pudemos escrever um texto especial para iniciar o ano, desejamos que este trecho seja um belo pontapé inicial nas análises a serem feitas este ano. Que Deus abençoe a todos nós e que os bons espíritos sigam nos inspirando.

Boa leitura e até a próxima!

"Entre os adeptos do Espiritismo, encontramos entusiastas e exaltados, como em todas as coisas; são esses, geralmente, os piores propagandistas, porque se desconfia de sua facilidade de aceitar tudo sem exame aprofundado. O espírita esclarecido se protege do entusiasmo que cega, observa tudo friamente e com calma: é esse o meio de não ser vítima das ilusões e dos mistificadores. Fora a questão da boa-fé, o observador iniciante deve, antes de tudo, levar em consideração a seriedade do caráter daqueles a quem se dirige".

Fonte: Introdução ao Espiritismo. Organização e notas J. Herculano Pires. Textos de Allan Kardec. Editora Paidéia, p. 251.